A imagem tradicional das dezenas de mulheres indígenas preparando e vendendo em frente ao Mercado Municipal de Campo Grande os produtos cultivados nas aldeias está agora imortalizada em uma escultura de três metros. Na mesma praça em que as índias trabalham, a Oshiro Takemori, a alguns metros do grande quiosque em forma de oca, a escultura em resina, sílica e dalomita dá as boas vindas e convida o visitante a conhecer a cultura terena.

A terena Nilda Antônio, da Aldeia Cachoeirinha: exemplo de inspiração para a homenagem
Confeccionada pelo artista plástico Anor Mendes com base em projeto da também artista plástica Indiana Marques, a obra contou com apoio do governo do Estado, por meio do Fundo de Investimentos Culturais, gerido pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.
Na inauguração, na manhã desta segunda-feira (10), o governador André Puccinelli afirmou que o incentivo representa o reconhecimento à história, às tradições e à cultura da comunidade indígena. “Queremos cada vez mais homenagear nossos patrícios, para que se sintam cidadãos, como todos nós. Aqui não há diferença”, disse André.
O governador, que já foi prefeito da Capital, lembrou que na cidade existe um dos melhores exemplos de valorização à comunidade terena: a implantação da primeira aldeia urbana do Brasil, a “Marçal de Souza, que abriga mais de uma centena de famílias, e que mantém o respeito à tradição indígena. Para a cacique da aldeia, Enir Bezerra, a nova homenagem na praça do Mercadão “significa a valorização não só das mulheres, mas de todos os índios”. A alegria foi compartilhada pela presidente da associação da feira indígena, Marileide Francisco. “Eu agradeço ao governador por ter lembrado da nossa feira”, disse ela.
O escultor Anor Mendes e a autora intelectual da obra contaram que foi feita uma pesquisa para a criação da peça. O ponto inicial do projeto foram as esculturas em tamanho pequeno confeccionadas por Indiana Marques, e que não são representações específicas das mulheres terenas. Na produção final, a escultura carrega nas roupas, traços e adereços a simbologia e características marcantes dessa etnia.
A ideia é que a bela imagem remeta a mulheres como dona Nilda Félix Antônio, nascida e criada na Aldeia Cachoeirinha, de Miranda, e que há 40 anos vende seus produtos em feiras e pontos diversos de Campo Grande. “Antigamente a gente vinha de trem, era um dia inteiro de viagem”, conta a terena de 65 anos. Nesta manhã, enquanto debulhava o feijão verde para ser vendido – a R$ 8,00 a lata – dona Nilda admirava de longe a escultura. “Eu achei tão lindo”, disse, com simplicidade, antes de deixar o trabalho de lado por uns minutos e ir ver de perto a homenagem.
O orgulho do trabalho duro na aldeia ela traz a cada viagem para a Capital para colocar os produtos à venda. “Quem planta e colhe lá são os homens, o meu filho, o marido. São coisas da roça, milho, maxixe, palmito doce, esse feijão verde que é ótimo pra fazer salada e baião de dois”.
Para o presidente da Fundação de Cultura, Américo Calheiros, um detalhe importante nesse projeto apoiado pelo FIC é que ele foi uma iniciativa da comunidade. “É uma proposta que vem nos lembrar esse espaço que é muito típico de Campo Grande, e o nosso papel é induzir a cultura do nosso Mato Grosso do Sul”, avaliou Calheiros. “Acredito que vai agregar ainda mais valor turístico a este local”.
Durante a cerimônia de inauguração, o governador determinou à Fundação fazer um estudo para incrementar a obra com a instalação de um repositório de moedas e de pedidos dos visitantes, a exemplo de outros locais turísticos, como a Fontana de Trevi, na Itália.
