“A água veio e levou
Porto Esperança ficou
Sem esperança de amor”
Cantado nos versos (acima) do poeta, publicitário e compositor Chico Lacerda, um dos fundadores do Grupo Acaba, o distrito de Porto Esperança é um lugar isolado em pleno século 21, embora distante apenas 80 km de Corumbá.
A falta de acesso por terra e o inviável transporte fluvial deixaram seus moradores à margem, literalmente, dos serviços essenciais – invisíveis e sem dignidade.
Depois de quase um século, o pequeno povoado situado na margem esquerda do Rio Paraguai vai ganhar uma estrada, a ser construída pelo governo do Estado, para chegar à BR-262, rodovia que demanda à Capital do Pantanal e que interliga aquela gente humilde ao mundo, conquista que os mais antigos deixaram de sonhar.
Afinal, foram tantas promessas não cumpridas.
“Estão trazendo prosperidade, uma maneira ilustre de viver a vida”, disse ela.
Trilhos da vida
As lágrimas de Natalina acumulam anos de luta, vida precária e sem um horizonte que apontasse mudanças no ritmo de uma comunidade que parou no tempo, sem perspectivas.
Porto Esperança surgiu depois da Guerra do Paraguai (1864-1870) e prosperou como transbordo de cargas e de passageiros com a chegada da ferrovia Noroeste do Brasil, em 1914.
O povoado prosperou, dependente daqueles modais de transporte. Contava com cartório, delegacia e agência dos Correios.
Os trilhos partiam de Bauru (SP) e chegavam à beira do rio trazendo pessoas e mercadorias, as quais seguiam de navios para Corumbá e para Cuiabá. Fernando Viera era uma dessas embarcações, velha canhoneira da Marinha adaptada para o transporte de passageiros após a guerra.
A construção da ponte ferroviária Eurico Gaspar Dutra sobre o Rio Paraguai, inaugurada em 1947 e trafegável a partir de 1952, decretou a decadência do porto, na época com cinco mil habitantes.
Com o novo traçado da ferrovia para Corumbá, concluído na década de 1950, contornando o povoado, este perdeu seu poder econômico e os seus encantos, como previu reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, em 1948.

Assim como Corumbá, distrito de Porto Esperança também é banhado pelo Rio Paraguai; local vai ganhar uma estrada e, com isso, se tornar um novo ponto turístico da região – Chico Ribeiro
A alternativa de renda passou a ser o Trem do Pantanal, que parava na Estação Inocêncio, a 5 km da vila.
“A gente vendia de tudo, peixe frito, chipa. Quando o [transporte de] passageiro parou [em meados da década de 1990] foi um Deus nos acuda. Muitos, como eu, passaram a viver da pesca, mas foram tempos difíceis”, conta um dos mais antigos moradores, Sérgio Matos, 70 anos, aposentado.
Hoje, 130 famílias vivem unicamente da pesca e da ajuda humanitária da prefeitura, que, periodicamente, leva assistência médica e cidadania.
“A água veio e levou
Os trilhos da Noroeste
E as viagens de vapor”
Futura estrada
Em 2013, a empresa agropecuária Brahman Beef Show sitiou a vila, alegando que suas terras chegavam à beira do rio.
Coagidos, alguns moradores venderam suas casas e seus ranchos de palafitas e foram impedidos de usar a estrada velha de acesso à BR-262, aberta pela comunidade.
Os tempos de prosperidade, no entanto, estão de volta com a futura estrada e a estação de tratamento de água construída pela Sanesul, o maior benefício recebido depois da energia elétrica, em 2001.
“Isso aqui tem muita história, não pode acabar”, diz o líder comunitário José Domingos, 55 anos, que ousou escrever uma carta ao governador pedindo a estrada.
Teve prospecção da Petrobras, nos anos 1950, em busca de petróleo no Pantanal. O cancioneiro Mário Zan compôs a música “Seriema” nas suas barrancas.
A mãe do controvertido narrador Galvão Bueno nasceu naquelas paragens, onde Martinho da Vila, malandro pescador, compôs “Jaguatirica”. Há quem garanta que os Rolling Stones passaram por lá, e Mick Jagger ganhou o apelido de “boca de armau”.
Próxima a Porto Esperança, Corumbá já tem um nome consolidado no turismo brasileiro. O município de Mato Grosso do Sul, conhecido também como Cidade Branca, tem 60% do seu território formado pelo Pantanal.
Apesar das constantes queimadas na região, ainda há muito do bioma que pode ser explorado pelos turistas.
Os casarões ainda estão na região do Porto Geral, de frente para o Rio Paraguai, onde é possível passear de chalana e aproveitar a culinária típica pantaneira.
Outro ponto interessante da cidade é o Cristo Rei, que recentemente foi reformado.
Todas as 72 estátuas que simbolizam a via-sacra, as 14 estações ao longo da subida, além da imagem do próprio Cristo, de 12 metros de altura, foram restauradas. De lá, durante a cheia do rio, é possível ver um pouco do esplendor do Pantanal.
A Cidade Branca ainda tem inúmeras curiosidades, como a Praça da Independência, que começou a ser erguida em 1915 e originalmente seria um zoológico. Com informações do Correio do Estado

