
Tocas de tatu-canastra com armadilhas para identificar anfíbios -Foto: Reprodução
Um estudo inédito revelou que as tocas do tatu-canastra, maior espécie de tatu do mundo, são essenciais para a sobrevivência de rãs durante os períodos de seca no Pantanal. A pesquisa identificou anfíbios vivendo dentro das galerias subterrâneas escavadas pelo animal, onde encontram abrigo contra o calor extremo, proteção contra a desidratação e acesso a alimento.
Segundo os pesquisadores, as tocas, que podem ultrapassar cinco metros de profundidade, funcionam como verdadeiros refúgios naturais em meio às condições severas do bioma durante a estiagem.
A descoberta ocorreu de forma inesperada. Inicialmente, os cientistas investigavam a presença de artrópodes nas tocas do tatu-canastra quando perceberam que armadilhas instaladas nas galerias subterrâneas registravam rãs com frequência.
O estudo foi conduzido pelo biólogo Mateus Yan, que analisava os invertebrados associados às tocas. Durante a coleta de dados, a equipe passou a notar repetidamente anfíbios no interior das estruturas escavadas pelos animais.
Ao todo, foram analisadas 36 tocas no Pantanal. Em 31 delas, cerca de 90% das amostras, os pesquisadores encontraram anfíbios.
Quatro espécies foram registradas, com destaque para as rãs do gênero Physalaemus, conhecidas popularmente como rãs-choronas devido ao som característico de sua vocalização.
Em algumas tocas, a quantidade de animais surpreendeu os cientistas. Na maioria dos registros, havia cerca de seis rãs agrupadas, mas uma das galerias chegou a abrigar aproximadamente 30 indivíduos.

Refúgio contra o calor e a seca
Os pesquisadores explicam que as tocas do tatu-canastra oferecem condições ideais para a sobrevivência dos anfíbios nos períodos mais secos do Pantanal. Como possuem pele permeável e são extremamente sensíveis à perda de água, as rãs dependem de ambientes úmidos para sobreviver.
Dentro das galerias subterrâneas, a temperatura e a umidade permanecem relativamente estáveis ao longo do ano, independentemente das variações climáticas externas.
Além de abrigo, as tocas também funcionam como áreas de alimentação. Durante o estudo, os cientistas registraram mais de 300 espécies de invertebrados vivendo nesses ambientes, especialmente formigas, que fazem parte da dieta de muitas espécies de rãs.
Tatu-canastra – “engenheiro do ecossistema”

A descoberta reforça o papel ecológico do tatu-canastra como um verdadeiro “engenheiro do ecossistema”.
Ao escavar grandes galerias subterrâneas, o animal modifica o ambiente e cria estruturas utilizadas por diversas espécies da fauna, seja como abrigo térmico, proteção contra predadores ou fonte de alimento.
Segundo Gabriel Massocato, coordenador do Projeto Tatu-canastra Pantanal, as estruturas escavadas podem atingir até cinco metros de comprimento e 1,5 metro de profundidade, promovendo impactos positivos para diferentes espécies do bioma.
Pesquisas de longo prazo conduzidas pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), responsável pelo Programa de Conservação do Tatu-canastra, mostram que essas tocas podem permanecer ativas no ambiente por muitos anos, servindo como abrigo para diversos animais do Pantanal, como onças-pintadas, jaguatiricas e aves. Fonte: primeirapagina
