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Festival aquece a quinta-feira fria em Corumbá com muita poesia

por Redacao
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A quinta-feira com chuva fina e queda de temperatura na Cidade Branca chegou trazendo uma manhã de poesia ao Festival América do Sul. Aberto na noite de ontem (30), o Festival teve nesse primeiro dia de programação completa boa parte das primeiras horas dedicada às letras.

O tradicional café da manhã pantaneiro que une a refeição típica às artes literárias recebeu a poesia do sul-mato-grossense Isaías Machado, com o lançamento do livro Sonho e Pó, em programação que também incluiu painel étnico-histórico de Mato Grosso do Sul, em apresentação da obra do professor doutor Gilson Martins.

Realizado no Moinho Cultural, o Quebra Torto com Letras teve casa cheia na estreia, com boa parte da plateia formada por jovens que cursam as diversas oficinas oferecidas pelo projeto social do Moinho. Com leitura, canto e interpretação dos textos de seu mais recente livro – o terceiro – Isaías Machado conquistou os jovens. Escrito após andanças por 12 países – da América do Sul, América do Norte e Europa – o livro, define o autor, tem como temática “as mazelas” dos povos. “É dedicado à humanidade”, afirmou.

Aline Espírito Santo, 16 anos, traz nos gestos a graça da arte do balé, que cursa no moinho. Cativada, foi um dos jovens que buscaram interação com o poeta ao fim da apresentação. “Gostei, principalmente, dele cantando Mercedes Sosa”, contou.

Para Isaías, essa oportunidade oferecida pelo Festival América o Sul é ímpar e deve ser consolidada. “É simplesmente tudo de bom”, afirmou, completando, em espanhol, “que jamais se acabe”. “Que os governos possam incentivar mais e mais e que um festival como esse, e como o de Bonito, só cresça mais e mais”, defendeu o artista.

Poesia argentina

Grande homenageado desta edição do FAS, o poeta e historiador Horácio Ferrer, parceiro de Astor Piazzola, foi o convidado da abertura do ciclo de palestras do Festival. Compositor de mais de 200 canções e autor de vários livros de poesia e história do tango, o artista reuniu na sala de eventos do Sesc Corumbá um entusiasmado grupo, formado por artistas, universitários, estudantes de artes, músicos, ávidos por compartilhar de suas histórias.

Para encerrar, brindou o público com a declamação de La Bicicleta Blanca:

 

Lo viste. seguro que vos también, alguna vez, lo viste: te hablo de ese eterno ciclista solo, tan solo, que repecha las calles por la noche.

Usa las botamangas del pantalón bien metidas en las medias y una boina calzada hasta las orejas, ¿te fijaste? nadie sabe, no, de dónde cuernos viene, jamás se le conoce a dónde diablos va.

De todos modos, si lo vieras pasar, miralo con mucho amor: puede que sea, otra vez…

 

El flaco que tenía la bicicleta blanca;

Silbando una polkita cruzaba la ciudad.

Sus ruedas, daban pena: tan chicas y cuadradas

¡que el pobre se enredaba la barba en el pedal!

 

Llevaba, de manubrio, los cuernos de una cabra.

Atrás, en un carrito, cargaba un pez y un pan.

Jadeando a lo pichicho, trepaba las barrancas,

Y él mismo se animaba, gritando al pedalear.

 

“¡dale, dios!… ¡dale, dios!…

¡meté, flaquito corazón!

Vos sabés que ganar

No está en llegar sino en seguir…”

 

Todos, mientras tanto, en las veredas,

Revolcándonos de risa

¡lo aplaudimos a morir!

Y él, con unos ojos de novela,

Saludaba, agradecía,

Y sabía repetir:

 

“¡dale, dios!… ¡dale, dios!…

¡dale con todo, dale, dios!…”

 

Pero cierta noche, su horrible bicicleta con acoplado entró a sembrar una enorme cola fosforescente. ¡increíble!: los pungas devolvían las billeteras en los colectivos; los poderosos terminaban con el hambre; los ovnis nos revelaban el misterio de la paz; el intendente, en persona, rellenaba los pozos de la calle, y hasta yo, pibe, yo que soy las penas, lloré de alegría bailando bajo esa luz la polka del ciclista.

 

Después, no sé, ¡te juro!, por qué siniestra rabia,

No sé por qué lo hicimos ¡lo hicimos sin querer!,

Al flaco, ¡pobre flaco!, de asalto y por la espalda,

Su bicicleta blanca le entramos a romper.

 

Le dimos como en bolsa, si asco, duro, en grande:

La hicimos mil pedazos… y, al fin, yo vi que él,

Mordiéndose la barba, gritó: “¡que yo los salve!…”

Miró su bicicleta, sonrió, se fue de a pie.

 

(mi viejo flaco nuestro que andabas en la tierra: ¿cómo te olvidaste que no somos ángeles sino hombres y mujeres?)

Flaco,

No te quedes triste,

Todo no fue inútil,

No pierdas la fe…

En un cometa con pedales

¡dale que te dale!

Yo sé que has de volver…

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