O Leblon está comemorando cem anos, não tem culpa se Bolsonaro, na interminável cruzada contra as coisas boas do país, identificou o bairro como novo inimigo, a suposta sede da perigosa Ancine, e prometeu tirar do “conforto”, todos para Brasília!, os que trabalham na agência de cinema.
O Leblon tem mais o que fazer, pernas para bater na Dias Ferreira, cuidar da árvore que o Rubem Fonseca plantou na Antero de Quental, curtir o show do Alceu Valença numa esquina da Ataulfo. Há 40 anos, o bairro vê a Vera Fischer todos os dias – não se impressiona com mais nada. Nem aí para a inveja e a ignorância.

O Leblon está fazendo cem anos e sofre ataque do presidente Jair Bolsonaro | Foto: Carlos Monteiro
“Aquelas noites badaladas, muitas festas, eles vão fazer agora em Brasília”, disparou a excelência com o rancor de quem nunca foi convidado para um chope com o João Ubaldo no Tio Sam, não viu a Isabela Capeto folhear revista de moda na madrugada da Letras&Expressões e, zero de humor à direita, não percebeu a importância midiática que fez um site, bomba! bomba!, dar a inesquecível manchete “Caetano Veloso estaciona o carro no Leblon”.
Dizem que é um bairro de bacana, de nariz em pé e que, onde mais?, na ânsia chique da gentrificação, conseguiu o milagre de transformar um açougue numa butique de comidinhas. Leblon, no entanto, há muitos. O melhor exemplo é a harmonia em que convivem a tradicional loja de ferragem Casa Campos e, logo em frente, o badalado Sushi Leblon.
No momento, como se fosse uma vila de subúrbio, o bairro cumpre minuto de silêncio pela morte do engenheiro agrônomo Mario Borgonovi, 105 anos, um daqueles senhores simpáticos que podem ser vistos todos os dias passando o Brasil em revista, e as mulheres também, a partir de uma mesa na calçada da padaria Rio-Lisboa. Morreu em maio. Ainda no verão “seu” Mário era visto na rede de vôlei do posto 12.
O Leblon tem motivos para ser metido, pois foi quem inventou o conceito de “baixo”, viu Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil, construir sua casa ao redor de uma quadra de squash, e abrigou o mais célebre bar da boemia intelectual brasileira, o Antonio’s. Numa noite comum de bebedeiras, podiam ser vistas na mesma mesa a poesia do Vinicius, a grana do Antonio Gallotti, a beleza selvagem de Regina Leclery e a bossa do jornalista Tarso de Castro dizendo que mês seguinte lançaria o Pasquim. Um dia entrou um sujeito de escafandro. Ninguém deu a mínima.
Esse passado esnobe – o paraíso das Helenas do Manoel Carlos, o cantinho onde o Chico Buarque mora, os flashes dos paparazzi – transformou o Leblon num símbolo da desigualdade brasileira, e foi aí que o populismo bolsonaro percebeu um inimigo. Errou. Na decadência carioca, com um contêiner da polícia no meio da praça, quatro bocas de saídas do metrô, o Antiquarius fechado, o Leblon centenário sabe que ainda é o fino, tem a Regina Martelli morando de frente para o mar, mas não dá para charlar o glamour de quando a praça Cazuza inventou o rock de bermudas. Baixou a bola.
O Leblon, como todo o Rio, reza baixinho para que algo aconteça e a vida renasça. Tem a quem pedir. Num dia de 1960, o cardeal D. Giovanni Montini visitou a Cruzada São Sebastião e depois, meia dúzia de quadras adiante, foi levado por D. Helder Câmara para um pastel no Alvaro’s. O italiano, que tomou caipirinha, três anos depois abençoava os fiéis no Vaticano com o título de Paulo VI. Em outubro de 2018, foi canonizado.
O Leblon dispensa presidente. Tem o santo Papa. Com O Globo
