
Imagem área da região do Delta do Salobra – Foto: Maurício Copetti
Uma área estratégica de aproximadamente 52 mil hectares, situada entre a Serra da Bodoquena e a planície pantaneira, está no centro de um projeto que pode elevar o patamar da conservação ambiental em Mato Grosso do Sul. A proposta, conduzida pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), visa a criação de um Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) abrangendo o Delta do Salobra e sua foz com o Rio Miranda.
O projeto, que envolve trechos dos municípios de Miranda e Bodoquena, encontra-se atualmente em fase de consulta pública, dialogando diretamente com cerca de 30 a 40 proprietários rurais e comunidades locais.
Conservação sem abrir mão da produção
Diferente de categorias de unidades de conservação mais restritivas, a escolha pelo modelo de Refúgio de Vida Silvestre busca um equilíbrio. Maurício Copetti, documentarista e presidente-fundador do Instituto Delta do Salobra (IDS), explica que o formato permite a manutenção de atividades econômicas já consolidadas na região.
“A pecuária presente nesse corredor foi considerada compatível com a categoria. O objetivo é reconhecer e fortalecer o papel dos produtores, que já exercem, há décadas, um papel relevante na preservação do território”, pontua Copetti.
Segundo o Instituto, a formalização pode ainda ampliar o acesso dos proprietários a mecanismos como o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e atrair investimentos internacionais voltados à conservação.

Vegetação encontra vista do Rio Salobra – Foto: Maurício Copetti
Corredor ecológico de valor global
A área em análise é reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente como de “altíssima prioridade para conservação”. Estudos apontam que o território funciona como um corredor ecológico natural que conecta quatro biomas: Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e o Chaco paraguaio. Essa ligação estratégica passa pelo território indígena Kadiwéu e pelo Parque Nacional da Serra da Bodoquena.
Ecoturismo de base comunitária
Além da proteção da fauna e flora, o projeto aposta no turismo. Em parceria com o IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas), o IDS desenvolve um projeto de turismo de base comunitária na região do Salobra.
A ideia é integrar a Serra da Bodoquena ao Pantanal em um itinerário turístico que valorize desde pousadas e restaurantes locais até a cultura de artesãos e guias da região. “Queremos um modelo de baixo impacto, ajustado à capacidade de cada área, unindo as terras altas às áreas alagadas”, completa o presidente do IDS.
Diálogo aberto
Na última reunião com o ICMBio, realizada no dia 27 de abril, produtores rurais levaram questionamentos sobre segurança jurídica, autonomia das propriedades e as futuras regras do plano de manejo. O encontro reforçou a necessidade de garantir que a governança do projeto seja transparente e duradoura.
“Esses modelos exigem governança e segurança institucional. Estamos dialogando com especialistas para estruturar alternativas que sejam viáveis para todos os envolvidos”, finaliza Copetti.
O processo de definição dos limites definitivos do REVIS segue em fase participativa, com novas discussões previstas para os próximos meses.
