
Os deputados federais Dagoberto Nogueira e dr. Luiz Ovando estão em rota de colisão no PP – Foto: Montagem
O ato de filiação ao Progressistas (PP), realizado na noite de 31 de março em Campo Grande, serviu não apenas para recepcionar novas lideranças, mas para escancarar o desconforto ideológico que permeia a legenda no Mato Grosso do Sul. O ingresso do deputado federal ex-tucano Dagoberto Nogueira no partido foi palco de um embate público com o também deputado federal Dr. Luiz Ovando (PP), evidenciando a fragilidade da coesão interna diante das divergências de posicionamento político.
O embate
Durante os discursos, o Dr. Luiz Ovando não poupou críticas ao novo colega de legenda. O parlamentar ironizou a trajetória de Dagoberto na Câmara dos Deputados, relembrando seu histórico de votos alinhados a projetos do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ovando pontuou, em tom de cobrança, a expectativa de que tal postura fosse revista com a mudança de sigla.
A tréplica de Dagoberto foi imediata e direta. O ex-tucano recorreu ao passado político de Ovando, mencionando sua origem no antigo Partido Popular Socialista (PPS), cuja gênese remonta ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). O argumento buscou relativizar as críticas, sustentando que a mudança de posicionamento é inerente à dinâmica política nacional.
Desgaste e incerteza interna
Embora o episódio tenha trazido o atrito para o palco público, fontes ligadas ao partido indicam que o desconforto já era notório nos bastidores. O Progressistas, tradicionalmente posicionado no centro-direita, enfrenta o desafio de integrar parlamentares com perfis notadamente progressistas.
A trajetória de Dagoberto, que transita pelo PDT e PSDB antes de chegar ao PP, é marcada por pautas sociais e trabalhistas e oposição a agendas de liberalismo econômico extremado. Esse perfil, segundo integrantes da sigla, gera ruídos na construção de consensos e insatisfação entre as alas mais conservadoras do partido.
Reflexos eleitorais
O cenário cria um ambiente de insegurança para a viabilidade eleitoral. Analistas políticos observam que o parlamentar encontra-se em uma posição delicada:
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Resistência Conservadora: O eleitorado de direita pode ver com desconfiança a permanência de nomes identificados com a esquerda em legendas conservadoras.
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Cautela da Esquerda: A militância progressista, por sua vez, tende a demonstrar reticência em apoiar candidaturas vinculadas a siglas de centro-direita.
O precedente de Geraldo Resende
A situação de Dagoberto não é um caso isolado na política sul-mato-grossense. O deputado federal Geraldo Resende vive desafio semelhante no União Brasil. Apesar de ter migrado para um partido de centro-direita, Resende mantém uma atuação focada na defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e em investimentos públicos, posicionamentos que, por vezes, colidiram frontalmente com a diretriz ideológica de nomes ligados ao bolsonarismo durante a pandemia.
Ambos os casos ilustram um fenômeno onde as fronteiras ideológicas partidárias tornam-se cada vez mais fluidas, colocando em xeque as estratégias de sobrevivência eleitoral de parlamentares que, na prática, exercem mandatos em dissonância com o “rótulo” do partido que ocupam. O futuro dessas candidaturas dependerá, agora, da capacidade de equilibrar o discurso pragmático com a gestão de uma base cada vez mais exigente quanto à coerência ideológica. Fonte: Correio do Estado

