Marta Freire
Com o apoio do Governo do Estado do Mato Grosso do Sul, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e, Universidade Manitoba do Canadá, artesãs da comunidade terena, denominada Retomada Mãe Terra, localizada no município de Miranda, inauguraram um Centro Cultural, onde estão expostos artesanatos confeccionados através da argila, palha, taquara, taboa, sementes, dentre outras matérias primas encontradas na própria reserva.

Centro Cultural da Retomada Mãe Terra, fica localizado no município de Miranda – Foto: Aureo Audi/Gazeta do Pantanal
Darci Santos da Silva, coordenadora do grupo das mulheres artesãs, destaca que cerca de 37 mulheres, jovens e crianças participam do projeto com reuniões todos os sábados. “Durante nossos encontros temos como objetivo ensinar aos mais jovens nossa cultura no trabalho com a confecção de cerâmica, cestaria, nosso grafismo, específico do povo terena. Por isso, a importância de termos conquistado um espaço próprio para o desenvolvimento de nosso trabalho e, a comercialização. A maioria do que produzimos aqui, já está vendido para várias cidades do Estado como Bonito, Corumbá e Campo Grande. Mas, também vai para o exterior”, contou orgulhosa, Darci da Silva.
A coordenadora do grupo de mulheres artesãs, fez questão de explicar que outras mulheres são responsáveis pela coordenação de artesanatos como, a confecção de peças de bijuterias, produzidas através de sementes, palha, etc. Nesse caso, a coordenação fica sob a responsabilidade de Juliana Faustino. “Alencar, Rosalina, Cremilda, Saturnina, cada uma dessas pessoas se responsabilizam pela confecção de cocares, cerâmicas em argila, cestas com palha de milho e de taboa, bijuterias dentre outros produtos da nossa tradição cultural”.
Reflorestamento
A Retomada Mãe Terra também desenvolve projetos de reflorestamento, como a recuperação de mananciais e nascentes, o plantio de produtos de hortifrutos, como alface, cebolinha, rúcula , couve, além de produzirem melancia, mandioca, abóbora, feijão verde dentre outros produtos típicos da agricultura do povo terena. Os produtos são todos orgânicos. Além disso, desenvolveram uma técnica para o plantio da guavira, fruta típica do cerrado, cuja colheita acontece nos meses de novembro até o início de dezembro.

No Centro Cultural estão expostos artesanatos – Foto: Áureo Audi/Gazeta do Pantanal
Depois da colheita, a comercialização se dá nas ruas, praças e avenidas dos municípios de Miranda e, também em Campo Grande.
Além desses produtos, a comunidade produz as tradicionais ervas medicinais, colhidas e desenvolvidas a partir das raízes, folhas e cascas das matas e árvores que foram plantadas e recuperadas ao longo dos anos.
A professora, Maria Belizario liderança e segunda coordenadora do grupo ancestrais, explica que na comunidade não existe a figura do cacique, presente nas demais aldeias localizadas no município de Miranda. “Aqui optamos por constituir uma associação que, conta com a participação de homens e mulheres que trabalham nas coordenações específicas. Por isso não temos um cacique, mas temos um pajé que é o Sr. João Leôncio”, pontuou Maria Belizário.
Vale destacar que o pajé é considerado uma das figuras mais importantes dentro das tribos indígenas brasileiras.

Lideranças constituíram um grupo de combate a incêndios, denominado “Prev Fogo” – Foto: Divulgação
“Nosso povo sempre teve uma relação bem estreita com a natureza. Quando chegamos aqui, sentíamos falta das árvores, das matas, dos rios dos pássaros, dos bichos. Com muita dedicação iniciamos os trabalhos de recuperação das áreas degradadas. Hoje podemos nos alegrar, porque recuperamos as nascentes, as matas, as arvores floresceram, e os animais e as aves voltaram”, contou em tom de contentamento e encanto, a professora Maria Belizário.
Lideranças da Retomada Mãe Terra, constituíram um grupo de combate a incêndios, denominado “Prev Fogo”. “É um grupo formado por homens treinados para combater focos de incêndios, muito comuns nos períodos de estiagem aqui na região do Pantanal. Esse também é um grupo de trabalho muito importante para a preservação do meio ambiente aqui em nossa comunidade”, destacou.
Mãe Terra comemora 17 anos de retomada de suas terras 
No próximo dia 28 de novembro, a comunidade indígena Retomada Mãe Terra estará em festa, a ocupação da área aconteceu no ano de 2005, após estudo antropológico feitos pela Fundação Nacional do Índio, FUNAI, que reconheceu que de fato a terra pertencia tradicionalmente aos indígenas.
A retomada é um processo de luta dos povos indígenas por suas terras, cuja ocupação era originária. Para muitos povos, esse processo está relacionado à reafirmação de identidades étnicas que foram negadas devido à pressão e à violência do Estado e da colonização.
Zanoni Rodrigues, Coordenador Pedagógico da Escola Extensão Mãe Terra, com formação em Matemática, cursando mestrado em etnomatemática, na Universidade Federal de Dourados, é uma das principais lideranças da comunidade.

Zanoni Rodrigues, Coordenador Pedagógico da Escola Extensão Mãe Terra, Maria Belizário liderança e segunda coordenadora do grupo ancestrais Darci Santos da Silva, coordenadora do grupo das mulheres artesãs e a jornalista Marta Freire – Foto: Aureo Audi/Gazeta do Pantanal
“Importante comemorar os 17 anos da Retomada Mãe Terra. Aqui está presente a luta de nossos ancestrais, do nosso povo que sempre esteve presente nas principais lutas pela preservação do território brasileiro. Temos muito que comemorar, mas temos muito a conquistar ainda”, destacou.
Na Retomada Mãe Terra vivem cerca de 200 famílias.
“Esta reportagem foi produzida com apoio do programa Diversidade nas Redações, da Énois, um laboratório de jornalismo que trabalha para fortalecer a diversidade e inclusão no jornalismo brasileiro. Confira as metodologias na Caixa de Ferramentas”
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