As guerras do Oriente Médio ofuscam (e quase relegam ao ostracismo) diversos dos atrativos turísticos do Líbano, um país sempre afetado pelas turbulências na região.
A cidade de Tiro, por exemplo, é mais conhecida por ser reduto do grupo político armado Hezbollah do que por abrigar ruínas romanas que remontam ao século 2 d.C. e que oferecem vista para o mar Mediterrâneo.
Qana, por sua vez, ganhou as manchetes pela chuva de bombas que tomou de Israel em 1996, ano em que os israelenses entraram em um sangrento conflito contra o Hezbollah. Nem todos sabem, porém, que muitos fiéis acreditam que na cidade ocorreu o episódio bíblico da transmutação da água em vinho realizada por Jesus Cristo. Um templo com lindos baixos relevos dedicado ao milagre e uma caverna onde Jesus teria dormido são pontos de peregrinação para libaneses cristãos no local.
Explorar os segredos da região é uma experiência que oferece doses consideráveis de risco — e histórias de viagens que, aos ouvidos de muita gente, ganham uma dimensão surreal. Na estrada, o encontro entre a beleza e a tensão bélica que existem no Líbano é constante (e marcante).
Xiitas e romanos
Quando bate na orla de Tiro, o mar Mediterrâneo ganha uma linda cor azul turquesa, e é aproveitado por banhistas desde as areias da Reserva Natural Costeira de Tiro, uma área de preservação ambiental de 380 hectares perfeita para o nado e onde, ocasionalmente, visitantes conseguem ver tartarugas-marinhas. Homens descamisados e calção de banho. Mulheres, via de regra, sob pesados véus negros. Quase todos muçulmanos xiitas.
Tiro foi um dos principais portos do Mediterrâneo na era pré-cristã, principalmente sob o comando dos fenícios. São das épocas romana e bizantina, porém, seus principais monumentos históricos. As colunas quebradas, mas ainda imponentes, do sítio arqueológico de Al-Mina aparecem ao lado do mar da cidade, fazendo sombra sobre uma via de 170 metros de comprimento coberta por mosaicos que conduz o visitante para dentro desse ambiente de quase 2.000 anos.
Construída durante a dominação romana na região, Al-Mina ainda exibe as ruínas de uma arena que comportava até 2.000 pessoas, e onde, acredita-se, eram realizadas sangrentas lutas parecidas com o boxe.
O local hoje está em ruínas, mas as brigas, em Tiro, continuam vivas (principalmente no aspecto ideológico). Na orla da cidade, é comum ver bandeiras e fotos de soldados mortos do Hezbollah. Quando a reportagem esteve por lá, uma equipe de cinco pessoas do Al-Manar, o canal de televisão do Hezbollah, gravavam um clipe, com drone e crianças dançarinas, de uma banda de música da região. As letras comemoravam as supostas vitórias do grupo xiita em seus confrontos contra Israel.
O Estado Islâmico, porém, parece ser hoje uma preocupação maior para o Hezbollah. Membro da organização, diretor do Al-Manar e presente na gravação do clipe, Belal Sater me mostrou orgulhosamente seu celular, com uma foto de seu filho: “ele tem 18 anos e eu o enviei para a Síria para lutar contra o EI. Ele está ajudando a defender o Bashar al-Assad [aliado do Hezbollah]”, disse, com um sorriso mais radiante do que o sol que ilumina as praias de Tiro.
Perto da fronteira, só com autorização
Ao sul de Tiro, fica o último trecho de terra antes da fronteira israelense: trata-se de uma faixa terrestre de 40 quilômetros de comprimento praticamente proibida para turistas. Para visitar boa parte desta área, é preciso ir até a cidade de Sidon, entrar em uma base do Exército libanês e implorar para que o oficial de plantão (geralmente um burocrata sem muita vontade de trabalhar) lhe dê uma autorização, nem sempre concedida.

