Em preparação à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas de 2016, o Rio de Janeiro está passando por uma repaginada integral; assim, o que era velho está ganhando novas cores.
A quilômetros da futura Vila Olímpica, do novo Maracanã e das estações de metrô que transformaram as ruas de Ipanema e do Leblon em canteiros de obras, o centro da cidade – e da vida pública do Brasil durante grande parte dos séculos 19 e 20 – ganhou vida nova na última década como ponto cultural e de entretenimento.
O renascimento vai além da Lapa, bairro mal conceituado cuja transformação foi tão alardeada que esgotou totalmente o fenômeno. Toda vez que me vejo naquela que já foi a capital brasileira, prefiro ficar em um trecho menos agitado, mas que também oferece um sem-número de atrações: o Rio Antigo, área entre as antigas docas e a Rua 1º de Março de um lado e a Avenida Presidente Vargas e a Praça XV de Novembro do outro.
De dia ou de noite, a atividade se concentra na pitoresca Rua do Ouvidor, cheia de restaurantes atraentes, galerias de arte, livrarias e lojas que vendem desde antiguidades a chapéus feitos sob encomenda. Em uma tarde de sábado, em julho, no auge do inverno brasileiro, ela estava lotada de cariocas almoçando nas mesas externas enquanto um grupo passava de mesa em mesa tocando chorinho, estilo musical que antecedeu o samba.
O gênero surgiu no século 19 e por isso parece combinar tão bem com o cenário, dando até um toque de simetria histórica ao ser tocado na rua que viu seu auge quando o Rio era o trono um tanto sujo de um império governado por Pedro 2º. Em seu livro, “Uma Parisiense no Brasil”, relato da vida na cidade nos idos de 1850, Adèle Toussaint-Samson descreve a profusão de chapeleiros, floristas e confeitarias “exibida em todo o seu esplendor” ao longo da Rua do Ouvidor, com destaque especial para os moradores da rua.
“É a reunião diária dos ‘jovens da cidade’ que, sob o pretexto de comprar charutos ou lenços de seda, saem para flertar com as francesas ou as moças que admiram. Essa rua, embora estreita e feia, sob vários aspectos, é o Boulevard des Italiens da capital do Brasil”, escreve ela, em referência à rua que era o centro da sociedade parisiense, acrescentando em uma explosão de entusiasmo condescendente, que é “uma rua essencialmente francesa”.
No meu caso, comecei a frequentar o Rio Antigo, às vezes também chamado de Corredor Cultural, em meados da década passada, quando um restaurante chamado Cais do Oriente, inaugurado alguns anos antes à Rua Visconde de Itaboraí, começou a oferecer shows de jazz ao vivo. No começo, fiquei meio ressabiado – afinal quando morava na cidade, na década de 70, trabalhava do outro lado da Avenida Presidente Vargas e de vez em quando almoçava em um japonês que ficava na mesma rua e, por isso, sabia que, uma vez que o comércio fechava as portas, ela virava um deserto.
O Cais do Oriente acabou encerrando os shows, mas eu continuei frequentando a região em grande parte porque então já tinha descoberto museus como o Centro Cultural Banco do Brasil, situado em um prédio neoclássico imponente que foi a sede do Banco Central. Ele existe desde 1989, mas sua programação vem se tornando cada vez mais ambiciosa nos últimos anos, e a popularidade só faz crescer, graças a mostras como “Elles: mulheres artistas na coleção do Centro Pompidou”, que aconteceu em julho. Em visitas anteriores, conferi uma instalação multimídia enorme de Laurie Anderson, uma exposição dos trabalhos de M. C. Escher e uma seleção de pinturas dos Mestres Impressionistas.
Mais de uma vez cheguei a passar quase o dia todo no CCBB. Depois de conferir as exposições – há sempre mais de uma – vou sempre dar uma espiada na livraria do térreo, comer alguma coisa no café, sentar e ler um pouco no átrio imponente e passar a noite vendo um filme, peça ou concerto, pois além das diversas galerias, o local possui dois cinemas e três teatros.
Na mesma quadra, em outro prédio histórico imponente reformado, fica o Centro Cultural dos Correios que, apesar do nome, é especializado em artes visuais. A minha exposição favorita foi a mostra interativa dedicada ao poeta português Fernando Pessoa, mas ele também oferece exibições de pintores, fotógrafos, escultores e designers brasileiros e europeus; no térreo há um bistrô sossegado, que serve almoço e jantar, além de um teatro que oferece espetáculos musicais e peças à noite.
Se você não tiver pressa e estiver à procura de uma experiência culinária autêntica, eu recomendo o Rio Minho, à Rua do Ouvidor, 10, perto das docas. Aberto em 1884, ele alega ser o restaurante em funcionamento contínuo mais antigo do Rio, o que deve ser verdade: em uma das paredes há uma foto de um almoço realizado ali na virada do século 20 para um grupo de figurões, sendo um deles o bisavô da minha mulher. A verdadeira atração da casa, porém, não é nem o seu clima português, mas o prato que criou: a sopa Leão Veloso, uma saborosa versão brasileira do bouillabaisse lotada de peixe e crustáceos e temperada com coentro, pimenta e vinho branco.
O Rio Minho não possui mesas externas, ao contrário de outras casas, cuja variedade é impressionante. No espaço de uma quadra, há várias opções de cozinha regional, além dos especializados em comida árabe, frutos do mar e sushi. Na Travessa do Comércio, ainda de paralelepípedos, há os restaurantes por quilo, especialmente populares durante a semana entre os funcionários da Bolsa de Valores e outras empresas, e que vêm crescendo com a popularidade da região.
A Travessa do Comércio dá no Arco do Teles, estrutura que data do século 18. Para os fãs de Carmen Miranda, cantora e atriz que conquistou Hollywood nos anos 40, esse quarteirão é um verdadeiro centro de peregrinação: embora nascida em Portugal, ela passou a infância à sombra do Arco, em uma pensão que sua mãe administrava no número 13 da ruela, onde hoje funciona um restaurante self-service que não lembra em nada a passagem da Pequena Notável exceto por uma pequena placa na parede acima das sobremesas.
Do outro lado, no Largo do Paço 38, fica a histórica Tabacaria Africana. Embora eu não fume, faço questão de sempre passar por ali: aberta desde 1846, a loja possui uma clientela que já incluiu vários presidentes e, no início, até o próprio imperador. Hoje em dia ela oferece mesas para os fumantes de charutos e cachimbos e uma variedade de fumos aromáticos de todos os cantos do mundo que podem ser misturados de acordo com a vontade do freguês.
A loja dá para a histórica Praça XV de Novembro, data em que, no ano de 1889, Pedro II foi deposto e o Brasil se tornou uma república. Dali, seguindo rumo leste, chega-se aos cais da balsa que atravessa a Baía da Guanabara e vai até Niterói que, guardadas as devidas proporções, seria como Oakland em relação a São Francisco. Aos sábados, nesse espaço entre a praça e o porto, acontece uma das maiores e mais diversificadas feirinhas que eu já vi, na qual, aliás, já encontrei vários livros antigos e preciosidades de samba e da Tropicália em vinil.
Vale a pena visitar a XV de Novembro principalmente por causa do Paço Imperial, onde as famílias reais portuguesa e brasileira viveram a partir de 1808. O palácio, cujo programa de restauração começou nos anos 80, fica do outro lado da praça, depois do chafariz que virou ponto turístico da cidade, e também foi transformado em centro cultural, com museu, biblioteca, um pátio enorme, restaurante e livraria.
Aos poucos, ele foi conquistando o público graças à sua programação: nos últimos anos, já vi ali uma mostra dedicada ao pintor e paisagista Roberto Burle Marx e, em julho, foi a vez da coleção de arte particular de Roberto Marinho, maior magnata da imprensa brasileira do século 20. Depois, fui para a Livraria Arlequim, no térreo, famosa por sua vasta coleção de DVDs e CDs de filmes e música brasileira, mas descobri que não podia chegar perto das prateleiras porque o quinteto de jazz liderado pelo gaitista Mauricio Einhorn estava se apresentando, atraindo uma grande multidão.
Assim, deixei o plano original de lado e resolvi aproveitar a música. E me lembrei de que esse é um dos motivos por que gosto tanto de passear pelo Rio Antigo: não importa a hora, você nunca sabe o que pode acontecer.
Se você for
Museus
A entrada é gratuita nos seguintes museus:
Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Primeiro de Março, 66; (55-21) 3808-2020; bb.com.br
Centro Cultural Correios, Rua Visconde de Itaboraí, 20; (55-21) 2253-1580.
Paço Imperial, Praça XV de Novembro, 48; (55-21) 2215-2622.
Restaurantes
Rio Minho, Rua do Ouvidor, 10; (55-21) 2509-2338.
Cais do Oriente, Rua Visconde de Itaboraí, 8; (55-21) 2233-253; caisdooriente.com.br.

Área externa do Paço Imperial, no Rio Antigo, onde a família real viveu a partir de 1808
