
Imagem ilustrativa – Foto: Madu Livramento/Jornal Midiamax
Aos cinco anos, Sophie Emanuelle Viana brincava em frente de casa quando, em um acidente, o portão caiu em cima da frágil cabecinha dela. A família toda correu para ajudá-la. Depressa, a pequena foi levada à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e acabou na Santa Casa de Campo Grande, onde recebeu alta. Quatro dias depois, Sophie morreu com hemorragia no cérebro — não identificada anteriormente por falta de exames, avaliam familiares.
Antes da morte, no hospital, como quem clama por socorro, a criança arrancou tufos do cabelo ao sofrer com dor intensa. De tanto inchaço, os olhos não abriam. “Não estou conseguindo te ver, titia, quero te ver”, pediu a menina, nos últimos momentos de vida, em um dos leitos da Santa Casa. Tudo isso ocorreu entre os dias 25 e 29 de maio de 2025. Mais de um ano depois, a família ainda aguarda respostas.
Ainda mais jovem, o bebezinho Caleb Montalvão Milano perdeu a vida aos três meses. Antes de nascer, ele já carregava o diagnóstico de cardiopatia congênita, uma alteração na estrutura do coração que surge ainda no útero. Por sorte, pensava a mãe e enfermeira Gabrielle de Souza Montalvão, Caleb veio ao mundo em Campo Grande, onde a Santa Casa é referência no tratamento da doença.
Assim, quando faltou ar ao bebê no dia 9 de maio de 2023, ela não pensou duas vezes antes de levá-lo ao hospital. Todo roxo e juntando as últimas forças para respirar, Caleb sofreu oito paradas cardíacas antes de morrer, no dia 11 de maio. Desses três dias, o cardiopediatra demorou quase 48 horas para avaliar a criança, enquanto a mãe pedia a presença de especialistas e implorava por uma cirurgia.
Sophie e Caleb não são os únicos. As duas famílias procuraram a Justiça, acusando a unidade de saúde de negligência. Com profissionais sobrecarregados e a recorrente falta de recursos, que parece ter virado problema crônico do maior hospital de Mato Grosso do Sul, a Santa Casa de Campo Grande acumula relatos de mortes evitáveis e supostas faltas de tratamentos adequados a pacientes.
‘Não devia ter tido alta’
Ao falar de Sophie, a mãe, Maria Aparecida Viana Pio, se lembra de uma menina sorridente e vaidosa. Ela gostava de se maquiar e pintar as unhas. Na escola, era descrita como “inteligentíssima” e, em casa, arrancava sorrisos dos partentes e gostava de dançar. “Era a alegria da família”, diz Maria, ao lado das duas tias da criança, que vestem uma camiseta com o rosto de Sophie estampado.

Inclusive, no dia 25 de maio do ano passado, ela brincava de manicure na penteadeira do quarto, com uma coleguinha, antes de sair para a calçada, onde a família estava reunida. Lá, elas puxaram o portão, a grade saiu do trilho e caiu em cima de Sophie. “Minha irmã ergueu ela e a gente viu que estava sangrando. No mesmo momento, a gente já foi às pressas para a UPA”, explica Maria Pio.
Lá, a demanda foi de vaga zero para o hospital de referência em trauma. “Não demorou nem 20 minutos e a gente já estava na Santa Casa. Ela estava acordada, sentindo dor e chorando”, relata a mãe. Chegando no hospital, segundo a família, a médica plantonista disse que não precisava de tomografia. “Fez raio-x, avaliou que não tinha fratura e liberou”. Com a alta em mãos, mãe e filha voltaram para casa já de madrugada.
No dia seguinte, Sophie acordou vomitando, com dor, febre de 39ºC e o rosto inchado. De novo, mãe e filha correram para o único recurso que conheciam: a Santa Casa. “Vamos para lá, porque ela não devia ter tido alta”, disse Vailza Viana, tia da criança, à época. Elas entraram no Pronto-Socorro apresentando a comprovação de que tinham saído do hospital havia poucas horas. Sophie foi internada e colocada em observação.
Inchaço na garganta calou a dor de Sophie
Então, no dia 26 de maio de 2025, a pequenina passou por tomografia, que constatou sangramento na cabeça. “Só que o médico avaliou e falou que não era importante, então manteve ela só em observação. Minha filha só foi piorando”, lembra Maria Pio. Ela só sairia do hospital três dias depois, já sem vida.
No dia 28, a equipe de saúde decidiu tirar Sophie Emanuelle da área de emergência e levá-la ao quarto. “Ela já estava aparentemente bem para eles. Porém, ainda tinha uma hemorragia no cérebro, estava com o rosto totalmente inchado e roxo, não conseguia abrir o olho”, desabafa a mãe. Maria percebeu que algo estava errado e chamou as enfermeiras, mas elas disseram que o inchaço seria normal pela pancada.
Foi no quarto que a menina, com dor, arrancou tufos de cabelo da cabeça. Primeiro, ela pediu ajuda, mas a garganta também começou a inchar, até tirar a voz de Sophie. “Ela gemia e chorava”, diz a mãe. As visitas médicas ocorriam uma vez por dia e a equipe nem sempre atendia aos chamados da família, alegando que estava ocupada ou na troca de plantão. Para diminuir o sofrimento, receitaram morfina.
Sophie morreu após sangrar por 10 horas
Às 5 horas do dia 29 de maio de 2025, os gemidos de Sophie acordaram Maria. “Acendi a lanterna do celular e vi que estava escorrendo [sangue]. Como estava com hemorragia há quatro dias, [o sangue] já não tinha mais onde ficar e começou a sair.”
Lençóis se molharam de sangue, mas a Santa Casa não tinha outros disponíveis para trocar. Assim, a tia da menina precisou levar uma bolsa de panos para substituir a roupa de cama.
“A cada cinco minutos, eu tinha que trocar, porque encharcava de novo”, lembra-se Maria Pio, mãe da garota. Exausta de esperar, enquanto assistia à filha morrer à míngua, ela andou pelos corredores pedindo ajuda. “Achei uma doutora, que foi a primeira a se preocupar realmente. A médica chegou no quarto, viu a situação dela e falou que precisaria levá-la à emergência.” Sophie sangrou no quarto por mais de dez horas.
Os dedos da menina já estavam gelados e não era possível medir a oxigenação. Ela foi sedada para passar por outra tomografia e nunca mais acordou. Quando Sophie finalmente foi para a mesa de cirurgia, já era tarde. Mãe e tia subiram e desceram as escadas da Santa Casa em desespero, enquanto a criança sofria paradas cardíacas e os médicos tentavam operar a cabeçinha dela.
Autópsia revelou a causa da morte
Quando recebeu a notícia da morte, Maria caiu no chão de um dos frios corredores do hospital, em um canto. O médico ficou mais de 40 minutos segurando as mãos da mãe enlutada, em apoio. “Não tive forças para questionar nada”, diz.
Quando Maria Pio perdeu as forças, Vailza Viana, tia da criança, precisou lutar pela verdade. Ao buscar a certidão de óbito, foi informada de que a causa oficial seria infarto. “Uma criança de 5 anos? Não, eu jamais aceitaria esse laudo”, detalha Vailza. Ainda atordoada pela morte da menina, a tia foi à delegacia, registrou boletim de ocorrência e pediu uma autópsia.
“O exame do Imol [Instituto de Medicina e Odontologia Legal] constatou que ela não faleceu por parada cardíaca. Ela faleceu diante de uma hemorragia no cérebro. A mesma que os médicos viram e falaram que não era importante”, desabafa Maria Pio, mãe de Sophie.
O que diz a Santa Casa?
Questionada pelo Jornal Midiamax sobre relatos de demora no atendimento e falta de acolhimento, a presidente da Santa Casa, Alir Terra, afirma que o hospital possui uma área de qualidade responsável por acompanhar a passagem dos pacientes pela instituição e receber avaliações durante e depois da internação.
Segundo ela, as reclamações são analisadas e levadas às equipes para corrigir problemas identificados. Alir pondera, porém, que a Santa Casa possui mais de 700 leitos, considerando as áreas pública e privada, e que os profissionais precisam priorizar os casos mais graves.
“Muitas vezes, a pessoa está atrás de algo naquele exato momento em que um médico está numa emergência e o caso do outro é de morte”, afirma. Segundo a presidente, a administração do hospital não interfere nas decisões assistenciais e os médicos devem seguir os protocolos de atendimento.
Cadê o especialista?
Dois anos antes do maior pesadelo das vidas de Maria Pio e Vailza Viana, foi a vez de Gabrielle de Souza Montalvão perder as forças em outro corredor da Santa Casa de Campo Grande, vista anteriormente com esperança pela enfermeira, especialista em saúde da família. Antes do sofrimento, no último ano de faculdade, Caleb chegou como uma surpresa na vida dela. “Eu experimentei o amor incondicional de uma mãe”, lembra.
Em um dos últimos exames de pré-natal, ela descobriu que o bebê tinha uma má formação no coração. A cardiopatia congênita afeta um a cada 100 nascidos vivos e é considerada grave. Assim, o diagnóstico caiu como uma bomba para a enfermeira, que se apressou para buscar os melhores caminhos.
“Nessas buscas, tive a errônea informação de que a Santa Casa seria um centro de referência em cardiopatia congênita. Inclusive, recebe repasses federais especiais por isso, então, teria condições de receber meu filho. Me aliviei”, explica Gabrielle. Ela classifica a informação como “errônea”, porque considera que a unidade de saúde não consegue, de fato, atender esse público.
Alir também afirma que todos os óbitos ocorridos na Santa Casa passam por uma comissão interna. Segundo ela, as mortes são analisadas para que o hospital possa prestar informações aos órgãos responsáveis pelo acompanhamento dos casos. Fonte: Midiamaxuol
