
Alguns dos livros paradidáticos adquiridos pelas prefeituras de Mato Grosso do Sul – Foto: Reprodução
Ex-prefeito de Fátima do Sul, Eronivaldo da Silva Vasconcelos Junior é um dos principais alvos investigados no procedimento que apura suposto esquema de corrupção e desvio de recursos públicos envolvendo contratos milionários para a compra de livros por prefeituras de Mato Grosso do Sul. Segundo relatório do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), em apenas um dia ele recebeu R$ 22,5 mil da Editora Avante.
A movimentação chama atenção pela data. Conforme os dados bancários reproduzidos no Relatório de Informação, a Editora Avante recebeu R$ 150.055 de Rio Negro em 9 de outubro de 2023, apesar de o valor ser para livros paradidáticos o dinheiro saiu do Fundo Municipal de Saúde. No mesmo dia, a empresa fez um Pix de R$ 22.500 para Eronivaldo.
O relatório coloca a transferência entre as movimentações realizadas “na data do recebimento e nos dias subsequentes” à entrada de dinheiro público. Além de Eronivaldo, o documento registra, nesse mesmo conjunto de operações, pagamentos de R$ 7,5 mil para Rhayane Souza Fanaia, responsável pela editora, e R$ 3.152 para a Superconteúdo Digital Ltda, dois outros investigados.
O documento analisado pela reportagem, porém, não informa qual teria sido a justificativa para o pagamento de R$ 22,5 mil ao ex-prefeito, nem aponta a existência de contrato ou prestação de serviço que explique a transferência.
O Gaeco também registra diversas referências a uma pessoa identificada apenas como “Júnior”, como o ex-prefeito é conhecido nos bastidores da política, sem apresentar, nesses trechos, seu nome completo. Essa pessoa aparece repetidamente nas conversas entre o ex-gestor de regulação da Saúde, Ed Carlos, e o advogado Gabriel Taquino, personagens centrais da apuração. No caso, sempre é citado sobre negociações para venda de livros a prefeituras, andamento de contratos, articulações com agentes políticos e divisão de valores.
Em uma conversa de 30 de junho de 2022, Gabriel afirma que “Júnior falou que o chefe autorizou” a contratação de Camapuã somente depois que outros municípios fossem fechados. Dias depois, em 11 de julho, o relatório do Gaeco aponta que ele seria responsável por tentar acelerar contratos envolvendo Miranda e Camapuã.
Em outros diálogos reproduzidos no documento, Junior é citado em conversas sobre percentuais e divisão de dinheiro. Em uma delas, Ed Carlos pergunta se “os 5 (%) meu e 5 do jr está garantido”. Já em agosto de 2022, o relatório registra a divisão de valores de R$ 52.217,75 para três destinatários identificados como “Dep”, “EC” e “JR”. Em outro trecho, há referência ao pagamento de R$ 52.217,75 para “o Deputado e JUNIOR”.
O relatório também reproduz publicação do Diário Oficial segundo a qual ele estava cedido à ALMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul), com ônus para o órgão de origem, durante o período de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2025, lotado no gabinete do deputado Jamilson Name.
A investigação teve início para apurar suspeitas de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato e outros crimes relacionados a contratos públicos.
No decorrer das apurações, o Gaeco afirmou que a Editora Avante recebeu R$ 5,2 milhões entre janeiro de 2021 e agosto de 2023 e que valores pagos por entes públicos eram posteriormente distribuídos entre pessoas apontadas na investigação.
Procurado, o deputado Jamilson Name tem negado qualquer envolvimento com transações ilegais com prefeituras.
Prefeitos e municípios citados também são procurados desde o início da operação Gutenberg e têm espaço aberto para respostas. Fonte: Campo Grande News

