
Ação na APA Baía Negra, em Ladário, reuniu 68 participantes, incluindo pesquisadores internacionais e bombeiros, com foco na prevenção de incêndios florestais- Foto: Henrique Arakaki
Representantes de 10 brigadas indígenas e comunitárias de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Roraima participaram de uma atividade prática de queima prescrita na APA (Área de Proteção Ambiental) Baía Negra, em Ladário, região do Pantanal. O treinamento reuniu pesquisadores brasileiros e portugueses, bombeiros e gestores ambientais, totalizando 68 participantes na linha de frente do manejo integrado do fogo.
A ação integrou a segunda edição dos Dias de Campo: Resgate do Uso Tradicional do Fogo no Pantanal, iniciativa promovida pelo Instituto Terra Brasilis por meio do projeto Vidas e Vozes Kadiwéu. O projeto conta com a parceria da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
De acordo com a organização, a escolha da APA Baía Negra como cenário do treinamento se deu por concentrar as características e os desafios geográficos encontrados em diferentes áreas do bioma pantaneiro. Por receber fluxo constante de visitantes, pescadores e moradores ao longo de todo o ano, a unidade de conservação exige ações contínuas e estratégicas de prevenção a incêndios.
Testes em campo
Para a realização da atividade prática, técnicos e brigadistas prepararam quatro parcelas de terra que somam cerca de cinco hectares. Duas áreas foram destinadas à aplicação direta do fogo controlado. Em uma delas, aproximadamente metade da vegetação foi consumida de forma planejada. Na outra parcela, a umidade presente no capim impediu a propagação das chamas, servindo como estudo de caso para as equipes.
Segundo o diretor-executivo do Instituto Terra Brasilis e idealizador do evento, Reinaldo Lourival, a atividade demonstrou na prática um dos pilares do manejo integrado: compreender as condições climáticas e ambientais seguras para o uso da ferramenta. “O exercício ajuda a entender em quais condições a ferramenta pode ser utilizada com segurança e quando os fatores ambientais impedem seu avanço”, explicou.
A coordenadora do projeto Vidas e Vozes Kadiwéu, Angélica Guerra, destacou que o principal ganho do encontro foi a articulação institucional. “A programação buscou reunir brigadistas indígenas e comunitários, pesquisadores, bombeiros e gestores públicos para compartilhar experiências e adaptar ao Pantanal as metodologias internacionais de treinamento”, pontuou.
Atuação na entressafra do fogo
Para quem vive e protege a região, a capacitação tem reflexo direto na rotina das comunidades. Virgínia Paz, presidente da APA Baía Negra e chefe da brigada comunitária local, pontuou que o trabalho preventivo é permanente. “A capacitação fortalece a preparação dos brigadistas e amplia a compreensão da população sobre a importância da queima prescrita”, afirmou Virgínia, lembrando que a conscientização de turistas e moradores sobre o uso responsável do fogo ocorre principalmente fora dos períodos críticos de seca.
Além das atividades de campo nas áreas de manejo, o encontro — que teve atividades divididas entre Corumbá e Ladário — promoveu rodadas de debate sobre os avanços e gargalos do setor. Entre os saldos positivos, os gestores apontaram a redução real de focos de incêndio em áreas manejadas, a criação de novas brigadas comunitárias, o fortalecimento de ações de educação ambiental e a melhoria no diálogo com as populações ribeirinhas e tradicionais.
Gargalos logísticos e representatividade
Apesar dos avanços, os brigadistas aproveitaram o espaço institucional para relatar desafios estruturais que ainda travam o combate rápido às chamas. Foram citados problemas crônicos como a chegada tardia de equipamentos de proteção e combate, limitações de apoio logístico financeiro e operacional, além dos severos obstáculos geográficos de acesso a determinadas áreas isoladas do Pantanal.
O papel das mulheres nas forças de prevenção também ganhou centralidade nos debates. Neudines Félix, integrante da brigada Taunay-Ipegue, do município de Aquidauana, defendeu publicamente a ampliação das oportunidades para o público feminino no manejo integrado do fogo.
“A presença feminina ainda é reduzida, apesar da capacidade técnica e do alto potencial de contribuição das brigadistas para as ações de prevenção e combate aos incêndios no bioma”, cobrou Neudines.

