
Projeto une agroecologia, conservação e protagonismo feminino no Assentamento Andalucia – Foto: Divulgação/ECOA
No Assentamento Andalucia, em Nioaque (MS), dez famílias produziram alimento, recuperaram nascentes e registraram mais de 20 espécies de fauna silvestre em um ano de projeto
Rosana Claudina — a Preta, como todos a chamam — tem uma forma de explicar o que está acontecendo nos assentamentos de Nioaque que dispensa explicações científicas, embora os dados confirmem cada palavra sua.
“A primeira colheita é deles. O que sobra é o que a gente está tirando pra nós.”
“Eles” são os bichos. Tamanduá, tatu, seriema, arancoã, gralha, gambá. Fauna silvestre que, pressionada pelo desmatamento do agronegócio no entorno, pelos incêndios e pelas mudanças climáticas, foi perdendo seus territórios de alimentação e encontrou refúgio nos assentamentos, onde ainda há vegetação, abrigo e ausência de veneno. O que antes era passagem migratória tem se tornado moradia permanente. E o que era convivência virou disputa pela sobrevivência.
“Não é mais como antes. Você plantava o milho e sabia que ia colher se chegasse a chuva no tempo certo. Agora, mesmo com a chuva no tempo certo, você tem o ataque das aves”, diz Preta, agroextrativista e liderança do CEPPEC — Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado.
Foi dessa tensão real, cotidiana e crescente, que nasceu o projeto Mãos Manejando Vida em Seus Quintais.
Uma ligação, uma demanda, um projeto
Em 2023, Nathalia Ziolkowski, presidenta da Ecoa, viu abrir um edital do Fundo ECOS/ISPN (Instituto Sociedade, População e Natureza) e ligou para a Preta pensando em algo relacionado ao baru, cadeia produtiva que as duas organizações trabalham juntas há anos. A Preta ouviu e disse: tenho conversado com as mulheres aqui, e a gente tem uma demanda que eu queria te apresentar.
A demanda era esta: as famílias do Assentamento Andalucia não estavam conseguindo produzir alimento nem para o próprio consumo. A pressão da fauna sobre as roças havia chegado a um ponto em que plantar sem proteger o cultivo não atendia as necessidades básicas dos núcleos familiares. As mulheres observavam comportamentos que nunca tinham visto antes: animais comendo frutas ainda verdes, porque a fome não esperava a maturação. E diante disso, muitas tinham simplesmente desistido de plantar ou plantavam apenas para alimentar a fauna, e uma ou outra espécie frutífera.
A solução que as próprias mulheres propunham era direta: quintais cercados, onde pudessem produzir com alguma proteção, enquanto o restante do lote continuaria disponível para a fauna. Uma forma de garantir a sobrevivência de todos, bichos e gente.
A proposta foi submetida ao Fundo ECOS/ISPN e aprovada.
O que se plantou
De maio de 2024 ao início de 2025, dez famílias do Assentamento Andalucia — lideradas pelas mulheres — receberam estrutura para implantar quintais agroecológicos de até um hectare cada: material de cercamento e tela, estrutura de alvenaria para instalação das caixas d’água e sistemas de irrigação, calcário, adubo e mudas de hortaliças, espécies medicinais e nativas.
A assistência técnica ficou com Nélida Tainá Rodrigues dos Santos, engenheira florestal e indígena do povo Terena, que conduziu o projeto com muita lucidez sobre seu próprio papel:
“Quando a gente entra nos territórios, a gente nunca está indo para ensinar. A gente sabe que quando vem em territórios, tudo vem da nossa ancestralidade.”
Nos meses seguintes, os lotes foram sendo cercados, gradeados, preparados. Nem tudo foi fácil: uma parceria com a prefeitura municipal para ceder um trator não funcionou como esperado, e várias famílias precisaram contratar tratoristas por conta própria — gasto que não estava previsto e que evidencia, uma vez mais, o quanto a agricultura familiar opera sem rede de segurança. Mas as mulheres não pararam.
Hoje, nos quintais do Andalucia, crescem: alface, couve, rúcula, cebolinha, salsa, quiabo, jiló, abóbora, maxixe, batata-doce, milho, mandioca e feijões em múltiplas variedades, gergelim, amendoim, mamão, melancia e banana. Um mosaico alimentar construído com trabalho, sementes trocadas entre vizinhas e, em muitos casos, com ajuda da família inteira: filhos, maridos e netos.
Dona Francisca não esconde o orgulho de ver o filho que mora na cidade entusiasmado e trabalhando na terra. “Meu filho Adriano ajudou a gradear no arado, no cavalo, juntamente com o meu esposo. Uma benção”, conta ela, que também teve o neto de 13 anos por perto nos fins de semana, desfrutando das melancias que nasceram no quintal da avó.
O que brotou além do esperado
Quando Nélida visitou os quintais em janeiro de 2025 e perguntou às famílias de onde tinham vindo as sementes, a resposta que mais ouviu não foi “comprei”. Foi: troquei.
Eliane passou sementes para a Preta. A Preta dividiu com a Francisca. Um conhecido trouxe duas qualidades de rama de mandioca lá da Serra de Bodoquena para a Maria José. Feijões catador, carioquinha, espécies medicinais… Tudo circulando de mão em mão, de quintal em quintal, sem que ninguém tivesse combinado que seria assim.
“A gente, de início, não esperava isso do projeto. Era uma contrapartida delas. E quando a gente vê que houve esse envolvimento, onde elas trocavam sementes e não precisaram comprar. Isso foi o mais legal, porque elas pensaram muito nisso: ‘Se eu tenho uma variedade de feijão verde, eu vou plantar um pouco e vou doar um pouco para outra’”, relata Nélida.
A troca de sementes não estava no plano de trabalho. Não tinha meta nem indicador. Aconteceu porque é assim que comunidades que confiam umas nas outras operam. Um registro espontâneo do fortalecimento do tecido social.
Houve também o feijão da Maria José.
Na primeira produção da família — feijão catador plantado numa área que antes era pasto, preparada apenas com calcário porque não havia recurso para adubo — eles não venderam. Distribuíram.
“A terra deu pra gente, né?”, ela explica, como se isso fosse suficiente para justificar a generosidade. “Ali era um pasto. A gente gradeou, jogou o calcário, e nossa terra nos deu. A gente divide com a comunidade.”
As sinergias que ampliaram o projeto
O que começou como uma proposta ao Fundo ECOS/ISPN foi crescendo à medida que outros parceiros reconheceram na iniciativa algo que valia apoiar.
O Global Nature Fund (GNF) e o Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha (BMZ) aportaram recursos que viabilizaram a construção do Viveiro Plantando Águas no CEPPEC — com capacidade para produzir até seis mil mudas nativas, com ênfase no baru — e contribuíram com 5.500 mudas nativas para plantio nas áreas de recuperação de nascentes. Somadas às 200 mudas do Fundo ECOS (sendo 100 plantadas nas nascentes e 100 distribuídas nos quintais), o projeto chegou a 5.700 mudas nativas plantadas em áreas que drenam para o Ribeirão Taquaruçu, afluente do rio Aquidauana, que alimenta o rio Miranda e chega até o Pantanal.
A Bosques del Mundo (BDM), da Dinamarca, apoiou a instalação de câmeras-trap nas áreas das nascentes – um monitoramento de fauna que rapidamente revelou a vitalidade do território em restauração. Em apenas dois meses de operação, uma das câmeras registrou mais de 20 espécies de fauna silvestre diferentes circulando pelo mesmo espaço onde hoje crescem quintais e mudas nativas.
Tamanduá. Tatu. Gambá-de-orelha-branca. Lobinho. Anta. Aves diversas.
Os mesmos bichos que comem verde porque estão com fome aparecem nas imagens das câmeras e aos olhos de quem recupera o Cerrado como prova de que, onde se restaura, a vida responde.
O que as mulheres estão construindo
Das dez famílias que iniciaram o projeto, dez chegaram ao fim com quintais implantados. Oito cercaram e telaram completamente suas áreas. Todas declararam que pretendem dar continuidade à produção.
A maioria que começou pensando em produzir apenas para consumo próprio agora já pensa em comercialização. Os primeiros excedentes já chegaram ao município de Nioaque em vendas informais. A próxima etapa é estruturar o acesso às compras públicas, como o PAA e PNAE, para que a produção encontre mercado institucional e preço justo.
A Dona Francisca já vendeu feijão. Já vendeu quiabo. Já vendeu melancia. Já fez “uns troquinhos que ajudaram bastante na despesa de casa”. E atualmente tem 1.500 pés de mandioca crescendo, amendoim, banana, batata-doce, abóbora e feijão catador no quintal que virou projeto de vida.
O CEPPEC, por sua vez, recebeu novos equipamentos – câmara fria e forno industrial – que ampliaram sua capacidade de beneficiar e comercializar produtos da sociobiodiversidade. E o viveiro de mudas fortalece a estrutura institucional para que as ações de restauração tenham continuidade além deste projeto.
Depois de um ano, Nélida Tainá olha para o que foi feito e escreve:
“Consigo ver mulheres que são capazes de se tornarem referência na agricultura familiar.” Fonte: ECOA
