
Em Miranda pelo censo do IBGE de 2022 são 5.818 mulheres se declaram negras; 5.934 homens se declaram negros – Foto: Aureo Audi/Gazeta do Pantanal
O último censo realizado em 2022 no município de Miranda, aponta que 5.818 mulheres se declaram negras; 5.934 homens se declaram negros; o município tem 25.536 habitantes, desses 11.752 são negros, o que corresponde a 46,02% da população mirandense ou que reside na cidade. O censo aponta ainda que das 11.752 pessoas que se declaram negras no município de Miranda, cerca de 7.500 pessoas são beneficiadas pelos programas sociais do Governo Federal, como bolsa família e o programa de renda continuada. Numa clara demonstração de que a maioria dos negros mirandenses vivem em condição de pobreza. O censo demográfico é uma pesquisa que visa coletar dados sobre a população de um país ou território. Ele é realizado com todos os habitantes e busca obter informações sobre as condições de vida, como moradia, rendimento e ocupação. Essa pesquisa é fundamental para entender a densidade e o perfil populacional, servindo como uma fonte de informações para autoridades e a sociedade. No Brasil, o censo é realizado pelo IBGE a cada 10 anos, sendo uma ferramenta essencial para o planejamento e a formulação de políticas públicas.
Núcleo de Negros em Miranda
Não há levantamentos oficiais sobre onde se concentra o maior número de negros no município de Miranda. Para isso seria necessário um estudo antropológico. Através do censo de 2022 estima-se que os negros se concentrem nas periferias da cidade e, em áreas rurais que podem estar ligadas diretamente aos remanescentes étnicos. No entanto, é possível observar os primeiros e históricos movimentos negros na cidade; dentre esses destaca-se o núcleo da família dos negros oriundos de religiões de matrizes africanas, de “dona Lili Benítez”, um dos primeiros terreiros de religião de matriz africana de que se tem notícia na cidade. Outro movimento importante foi a fundação do clube noroeste, espaço ocupado majoritariamente por pessoas negras, incluindo trabalhadores da Rede Ferroviária, mães e pais de santo dentre outros segmentos negros da cidade. Esse espaço, foi palco de visível apartheid social na cidade. Enquanto brancos e ricos frequentavam o antigo Clube Social da Cidade, os negros se concentravam no Clube Noroeste. Destaca-se ainda, a família de “Dona Micha”, da professora “Zuzu”, os negros do bairro Laranjeiras, da benzedeira “Dona Preta”, da rezadeira “Maria do Pito”, da “Dona Marlene”, do Sr. Ivanildo da área rural da Bocaina e, de tantos outros nesse universo de 46,02% da comunidade negra do município de Miranda que só vai ser possível mapear através de um estudo mais detalhado.
História do Movimento Negro no MS
A história dos negros no Brasil é uma narrativa de resistência, luta e contribuição cultural, que continua a moldar a identidade nacional e a sociedade contemporânea. O Brasil passou por profundas transformações no decorrer das últimas décadas em relação as questões raciais, e o debate sobre as desigualdades étnicas se propagou em âmbito nacional. Ações propositivas dos movimentos e grupos étnicos transformaram-se em medidas governamentais pontuais de combate ao racismo e a desigualdade racial na sociedade brasileira. O que antes era considerado um sonho distante elege um novo cenário. O sistema de cotas nas universidades, o acesso aos cursos profissionalizantes, são conquistas das reivindicações dos movimentos sociais para tentar dirimir a exclusão social.
A luta e as conquistas dos negros em Mato Grosso do Sul
Em Mato Grosso do Sul 22 comunidades declaram-se quilombolas. Dessas 17 já foram reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura, como remanescentes de comunidades de ex-escravos. Essas comunidades formaram pequenas associações e firmaram parcerias com instituições ligadas ao Movimento Negro de Mato Grosso do Sul. A luta pelos direitos dos negros no Estado começou na década de 1980 com a Fundação do Grupo de Trabalho e Estudos Zumbi (TEZ) formado por estudantes de direito na Universidade Católica Dom Bosco, para estimular e a consciência das questões pertinentes a negritude, dando origem ao Movimento Negro de Mato Grosso do Sul. Nos anos de 1990, organiza-se o Coletivo Mulheres Negras de Mato Grosso do Sul “Raimunda Luzia de Brito” (Conegras-MS). Na década seguinte se consolidou o Movimento Quilombola e a Coordenadoria de Políticas de Combate ao Racismo entra em ação. Em 2002 foi realizado o Fórum das Entidades do Movimento Negro de Mato Grosso do Sul e criado o Instituto Negra Eva. Essas entidades passaram a se conectar com órgãos nacionais. Mato Grosso do Sul conta, portanto, com uma grande rede organizacional dos negros que integra, além de todas as entidades do Movimento Negro, as comunidades negras rurais quilombolas, ou seja, o Movimento Quilombola.

