Marta Freire
Embora entidades representativas do jornalismo brasileiro, como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Federação Nacional dos Jornalistas (FNAJ), Sindicatos Regionais e entidades afins, desenvolvam debates constantes, sobre o tema que envolve toda forma de violência, discriminação e abuso contra mulheres no jornalismo, muitas profissionais não denunciam a violência, por diversos fatores; dentre os quais vergonha e receio de perder o emprego, num mercado de trabalho cada vez mais restrito.
Caso relativamente recente aconteceu com a jornalista sul matogrossense, Marta Freire. Em meados de 2019, a jornalista relata que foi chamada as pressas na prefeitura do município de Miranda, cidade localizada a 210 km da capital do Mato Grosso do Sul. Nessa ocasião, ocorreu a cassação de mandato da prefeita e de seu vice, pelo Tribunal Regional Eleitoral. Como determina a legislação eleitoral, nesses casos quem assume o executivo municipal é o Presidente do Legislativo.
Após os trâmites legais, a jornalista foi convidada a assumir o cargo de assessora de imprensa da prefeitura, sendo que em 45 dias o município teria nova eleição para o cargo de chefe do executivo municipal.
Assim que assumiu a função, a jornalista tratou de checar o organograma da municipalidade, secretarias, fundações, autarquias e seus respectivos representantes. Bem como, nome de todas as autoridades da cidade, como juízes, defensores públicos, delegados, entidades representativas, dentre outros.

Jornalista Marta freire que ocupou um cargo de assessora de imprensa na prefeitura de Miranda – Foto: Divulgação
Se deu então, uma nova eleição que, por sufrágio das urnas reconduziu o prefeito “tampão” ao cargo de prefeito do município de Miranda. A jornalista permaneceu no cargo.
Mantendo um cronograma de trabalho compatível com a função que exercia, a jornalista relata que sempre acompanhou as agendas, inaugurações de obras, lançamentos de obras, demandas, entrevistas à imprensa, reuniões do prefeito e de seus secretários, envio de releases aos veículos de comunicação e manutenção do site oficial. Mas, que já no inicio se deparou com algumas dificuldades, sendo que a principal era a ausência de um fotografo profissional. A disposição da assessoria de imprensa, foi nomeado um jovem que nunca foi repórter fotográfico em toda sua vida. “Como o cargo era político, assim como o meu, me restou aceitar o que tinha para a ocasião. A princípio, a relação entre a jornalista e o “fotógrafo” era de cordialidade. Mas, logo surgiram os primeiros sinais de desrespeito, má vontade, agressividade, discriminação e abusos”.
“Cem Dias de Administração e mais Cem dias de Abusos e Discriminação”
Como forma de promover e divulgar a administração municipal, a jornalista relata que organizou um evento denominado “Cem Dias de Administração”, com o objetivo de dar maior visibilidade e publicidade as ações do prefeito. Para que o evento acontecesse, era necessário o uso das fotos, imagens dos eventos, reuniões e inaugurações. No entanto, o material, que estava em posse do “fotografo” foi retido pelo mesmo.
“Todas as tentativas de argumentações foram em vão. Nem prefeito, nem secretários, nem a interferência de representantes do legislativo municipal fizeram com que o rapaz entregasse o material que é de propriedade do poder público municipal”. Mesmo assim, o evento aconteceu e, mesmo com a precariedade do material fotográfico, foi um sucesso do ponto de vista político. Participaram além do prefeito e do vice, vereadores, representantes do poder judiciário, sindicalistas, representantes de associações, imprensa local e das áreas indígenas, que nunca haviam sido chamadas para um evento oficial, além da comunidade local.

Prefeitura Municipal da cidade de Miranda – Foto: Divulgação
Violência de gênero e abuso psicológico
“Miranda é a cidade que nasci, uma cidade relativamente pequena onde quase todos se conhecem. Em 32 anos de jornalismo, nunca havia sido convidada para trabalhar em um órgão oficial em minha terra natal. A cidade têm 247 anos de fundação, fui a primeira jornalista mulher a assumir essa função, uma das piores experiência de minha vida enquanto jornalista e mulher. Ficou evidente que, toda sorte de violência praticadas contra mim, tinha o respaldo dos chefes da administração. Não houve represália contra os assediadores (depois vieram outros). Em certa ocasião, cheguei para mais um dia de trabalho e, todo o equipamento tinha sido retirado da sala e colocado num corredor. Aumentei o tom da voz e ordenei que colocassem de volta no lugar. Piadas, indiretas em redes sociais, cochichos e, por fim o isolamento. Não sei de onde tirei forças e coragem… Talvez eu saiba. Permaneci firme; e repetia pra mim mesma um mantra: Quem não me respeita, precisa me temer. Cheguei até aqui pra contar essa história. Todos viam, ouviam, sabiam e sabem. Não recebi o apoio ou a solidariedade de ninguém. Não denunciei, não levei o caso ao Sindicato dos Jornalistas pelas razões especificadas acima. O assédio moral, o abuso psicológico, e outras formas de violência no ambiente de trabalho, causam doenças psicológicas, como depressão, estresse, ansiedade e, baixa auto estima. Hoje ,eu sou a repórter que entrevista a jornalista. Aos poucos to restabelecendo minha auto estima, meu orgulho de ser mulher e jornalista. Miranda tem outro prefeito, o “fotografo”, não sei por onde anda, os demais abusadores continuam circulando pelo prédio da prefeitura e, a assessoria de imprensa é comandada por um fotógrafo (mesmo) do gênero masculino. E está tudo certo. Mas, isso não é vitimismo tão pouco exagero. É fato.”
A Importância da Énois e o programa “Diversidade nas Redações”
Selecionado para participar do Programa Diversidade nas Redações, promovido pela, Énois, laboratório que trabalha para impulsionar diversidade,representatividade e inclusão no jornalismo brasileiro, o site gazetadopantanal.com , do qual a jornalista, Marta Freire é colaboradora desde a sua fundação, teve papel fundamental na decisão da jornalista em relatar o assédio moral e o abuso psicológico, que desencadeou problemas como ansiedade, baixa auto estima, dentre outras patologias.
“As reuniões com coordenadoras, com a mentoria e, principalmente com os e, as colegas de profissão de outras regiões do Brasil, me encorajaram a contar essa história. A cada encontro me fortalecia mais. Daí, resolvi escrever sobre esse assunto tão relevante. No entanto, prefiro manter o sigilo com relação a identidade dos envolvidos. Pelas mesmas razões pelas quais não denunciei. Um passo de cada vez, quem sabe num outro momento. E , parafraseando Caetano Veloso; as vezes é solitário viver”,concluiu Marta Freire.
“Esta reportagem foi produzida com apoio do programa Diversidade nas Redações, da Énois, um laboratório de jornalismo que trabalha para fortalecer a diversidade e inclusão no jornalismo brasileiro. Confira as metodologias na Caixa de Ferramentas”
![]()

