Edson Moraes /Jornalista
Nossas bandeiras pela democracia seguirão desfraldadas, mas a violenta e implacável dor da saudade penetra profundamente em nosso coração. 
Buscaremos, camaradas, forças, fé e resignação como humanos que somos, para que o verbo continuar não se interrompa – e seja, a partir de agora, uma conjugação maiúscula, com um Fausto Matogrosso em cada um de nós!
Escrevemos com tantos e tantas camaradas algumas páginas das mais completas que eram paridas no ventre dos nossos ideais. E aprendemos diversas lições, e enfrentamos inúmeros testes, e nos submetemos às mais complexas e tortuosas provações.
E jamais arredamos pé daquilo em que acreditamos, daquilo que nos fazia comuns, daquilo que nos dava como alimento da alma e do pensamento a certeza de acreditar num mundo fraterno, justo, solidário, convivencial.
Conheci o Fausto quando cheguei de mudança, em Campo Grande, no ano de 1978. Meu primeiro emprego foi na equipe de jornalistas do diário “A Tribuna”.
Uma de minhas matérias sobre protestos de acadêmicos da Fucmt chamou a atenção de alguns de seus líderes e apoiadores. Fausto era apoiador e me procurou para expressar agradecimento pela isenção do texto, eis que eram tempos brutos e a intolerância do regime ditatorial e obscuro tentava engessar a imprensa dentro de seus compartimentos discriminatórios.
A partir dali iniciava-se uma forte e edificante amizade, que elevou-se para a camaradagem do ideal socialista.
Com o Fausto, ingressei no “partidão”, o velho e bom PCB, que me renovou e tornou ainda mais forte a convicção na democracia, nas liberdades. O velho e bom PCB me atualizou os conhecimentos sobre comunismo e o materialismo dialético. Mostrou-me que a relação capital-trabalho não tinha o mercado como seu árbitro e que até mesmo dogmas e mantras da ciência e da pulsação marxista-leninista haviam sido pensados para que se renovassem a cada futuro que se abrisse. Nada de partido único. Nada de controle de vontades e ambições legítimas do ser humano. E tudo de interesse coletivo.
Com Fausto vi e entendi ser este um ideal que tinha, no seu foco maior, a perspectiva aparentemente contraditória da revolução sem armas, mas uma revolução de quebras estruturais e de afirmação do socialismo democrático, pluripartidário, capaz de se estabelecer num País soberano, mas articulado com as grandes lutas humanistas do planeta, sempre postulando a liberdade e a autodeterminação dos povos.
Com o Fausto Matogrosso e demais camaradas atravessamos algumas tempestades, porém saboreamos dias de brisa suave de esperança, como na data em que o partidão retornou à luz da legalidade institucional.
Saíamos das sombras tomando o vinho do alívio redemocratizador do nosso Brasil. E seguimos pelas dezenas e dezenas de plenárias locais e atividades nacionais e internacionais descobrindo e redescobrindo realidades e desafios.
Em fevereiro de 2021, em plena pandemia, encontramo-nos em seu lar para acertarmos algumas novas aventuras, entre elas, escrever livros e organizar um movimento de defesa da democracia sem cor partidária, para fazer a resistência ao atual avanço obscurantista. Eu vi o olhar do Fausto aceso como em 1978. O olhar que era tal qual os olhares do Ricardo Brandão, da Margarida Marques, do Flávio Teixeira, da Bianca Machado, da Ione Orro, do Paulo Cimó, do João Pedro Guerreiro, do Mané Guató, da Neide, do Onofre, do Carmelino, da Veranice, do Luiz Salvador, do Aristides, do Ílton, enfim, de homens e mulheres que se somaram na construção de um sonho. Muitos se afastaram deste sonho. Mas muitos permanecem.
O Fausto está aí nesta sacrossanta teimosia juvenil que é sonhar e inventar sonhos. É como nos disse, certa vez, o João Saldanha, num dos congressos do PCB: “A gente perde dinheiro, perde carro, perde mulher, perde lugar na fila. Mas sonho a gente só perde se não quiser ganhar a verdade”.
E assim, o Fausto entrou na estrada de luz única da verdade. E nos mantêm sonhadores.
“Bem unidos façamos/Nesta luta final/Uma terra sem amos”!
***Para o engenheiro, professor, ex-vereador, escritor e articulista Fausto Mato Grosso, que deixou a vida terrena nesta quarta-feira, aos 73 anos.***

