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Polícia Civil de Miranda deflagra “Operação Magia Negra” em aldeia

por Redacao
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Nesta quinta-feira 05/08/2021, uma equipe do S.I.G. (Setor de Investigações Gerais) da Delegacia de Polícia Civil de Miranda, que contou com apoio de investigadores da 1ª DP-Aquidauana, deflagrou a “Operação Magia Negra”, logrando êxito em cumprir 4 (quatro) mandados de prisão de indivíduos envolvidos na morte de uma criança de 9 (nove) meses em ritual espiritual em aldeia indígena.

Em fevereiro de 2021, chegou ao conhecimento da unidade policial de Miranda que uma criança indígena de 9 (nove) meses deu entrada no Hospital Regional de Miranda já em óbito. A criança apresentava diversas lesões e queimaduras pelo corpo, todas circuladas com uma tinta vermelha e cobertas por uma espécie de pó preto e possuía um terço com cruz de maneira envolto em seu pescoço.

A partir disto, o Setor de Investigações Gerais (S.I.G.) da Delegacia de Polícia de Miranda, iniciou investigações no intuito de apurar os fatos. Averiguou-se que a criança foi levada ao hospital pelos genitores e outros parentes, que alegaram apenas que estava com “sapinho”. A genitora, aparentando tranquilidade, chegou ao hospital, dissimulando que a criança ainda estava viva e que apenas tinha “sapinho”. Todavia, quando foi atendida na triagem hospitalar, a enfermeira já constatou que a criança estava em óbito há, pelo menos, 40 (quarenta) minutos.

Além disto, a genitora omitiu a existência das lesões e queimaduras, fato que foi percebido apenas após inspeção minuciosa da criança já em óbito. A criança, apesar de morta, se apresentava saudável e nutrida, constatando-se diversas queimaduras, que aparentavam ser oriundas de cigarro quente, na orelha, braço e no tórax, circuladas de uma espécie de tinta vermelha.

A criança também possuía três bolhas de queimaduras e um hematoma na região inguinal (virilha), também circuladas por tinta vermelha e com a presença de substancia de pó preto. Somando-se a isto, a criança foi apresentada com um terço de madeira envolto no pescoço. Algumas das lesões já estavam em fase de cicatrização, sugerindo que foram realizadas continuamente há alguns dias.

Os funcionários e médicos do hospital informaram que não existia nenhum indício de “sapinho” na criança. Fato que causou estranheza é que, após a notícia do óbito, os genitores e parentes reagiram com extrema frieza, sem reação compatível com o falecimento de um filho de tenra idade, levantando suspeitas de que já sabiam que a criança estava morta. O laudo necroscópico concluiu que a criança faleceu de septicemia (infecção generalizada), provavelmente decorrente da lesão na inguinal.

Em apurações preliminares, tendo em vista a proximidade da data dos fatos com festas religiosas típicas que envolvem sacrifícios e consagrações a entidades, bem como a presença da tinta vermelha e pó preto envolvendo a criança, levantou-se a linha de investigação sugestiva da prática de ritual espiritual com a criança. Em entrevistas preliminares, os genitores deram informações contraditórias sobre as lesões e incompatíveis sob o ponto de vista médico, chegando a relatar que os ferimentos surgiram no mesmo dia e “do nada”.

Criança indígena de 9 (nove) meses deu entrada no Hospital Regional de Miranda já em óbito – Foto: Reprodução/Facebook

Após aprofundamento nas investigações, os genitores confessaram que levaram seu filho de 9 (nove) meses a uma dupla de curandeiros locais. A criança foi submetida a procedimentos espirituais durante 4 (quatro) dias seguidos, num local chamado “santuário”, onde existiam a presença de diversas imagens de entidades religiosas.

Informaram que as lesões no corpo surgiram após os rituais e que a mancha de pó preto e tinta vermelha também são oriundas destes procedimentos, que duravam aproximadamente 1 (uma) hora. Um dos curandeiros também informou que fizeram os referidos procedimentos ritualísticos (“simpatias”) com a criança, visando sua “cura”.

Relatou que, de fato, realizaram as queimaduras de cigarro e cinzas de cigarro quentes, invocando entidades espirituais neste ato. A caneta vermelha era consagrada a entes espirituais e era utilizada para circular as lesões. Após o quarto dia de rituais, a criança começou a apresentar febre e inchaço abdominal, sendo levada a outra “curandeira”, que reside em aldeia no município de Miranda.

Segundo relatos, esta curandeira seria conhecida por realizar rituais satânicos e magia negra. Na residência desta curandeira, a criança foi levada a um quarto, onde teriam diversas imagens de entidades religiosas, sendo que entoaram cânticos, invocando tais entidades, bem como passaram óleo com sementes pretas. Após isto, a curandeira informou que o “santo” lhe disse que “não era mais com ele” e deveriam levar a criança ao médico, o que foi feito.

Diante disso, após investigação minuciosa dos fatos, a autoridade policial representou pela prisão preventiva dos envolvidos. Na data de hoje (05/08/2021), a equipe da Delegacia de Polícia de Miranda, com apoio de investigadores da 1ª DP- Aquidauana, deflagrou a “Operação Magia Negra”, cumprindo 4 (quatro) mandados de prisão, referentes aos genitores da criança, bem como de dois curandeiros. Os quatro indivíduos serão indiciados pelo crime de homicídio qualificado pelo meio cruel e as investigações seguem no intuito de se identificar outros envolvidos.

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