O candidato à Presidência Fernando Haddad (PT) usou seu espaço na TV para expor discursos favoráveis de Jair Bolsonaro (PSL) à ditadura militar e também para mencionar a admiração do presidenciável por Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel chefe de órgãos de repressão política durante o regime nos anos 70.

Coronel foi chefe de órgãos de repressão política durante o regime nos anos 70 – Foto: Reprodução
No programa eleitoral petista, cenas do filme Batismo de Sangue, dirigido por Helvécio Ratton, de 2007, com um personagem nu sendo torturado com choque ilustram as perguntas “Você sabe o que é tortura? Isso é tortura”.
As imagens são intercaladas pelo depoimento da escritora e militante Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha Teles. No testemunho, ela diz que foi torturada pelo coronel Ustra e que ele levou a filha dela, de cinco anos, para vê-la após uma sessão de sevícia.
“O momento de maior dor foi o Ustra levando os meus dois filhos na sala de tortura, onde eu estava nua, vomitada, urinada”, disse Amelinha no programa eleitoral.
Em 2005, a família Teles moveu uma ação civil declaratória contra o coronel, pedindo que ele fosse reconhecido como torturador. Em 2008, a solicitação foi acatada e Ustra foi o primeiro agente da ditadura a ser declarado torturador pela Justiça. Ustra morreu em 2015.
O programa repercutiu nas buscas do Google, que registrou um aumento repentino na procura do nome do militar reformado.
O período em que o coronel mais foi buscado no Google, no entanto, ainda é em abril de 2016, quando Jair Bolsonaro dedicou à memória de Ustra seu voto pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff: “Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim”.
Ustra também torturou Dilma Rousseff, que foi uma dos 2.000 detidos no DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna) entre 1970 e 1974, quando o coronel foi chefe do órgão.
A Comissão da Verdade contou ao menos 45 mortes e desaparecimentos por ação de subordinados a Ustra no período em que ele esteve a frente do DOI-Codi.
Em depoimento à Comissão da Verdade em 2013, Ustra disse que apenas cumpriu ordens. “Quem deveria estar sentado aqui é o Exército Brasileiro, não eu”, disse. Na ocasião o coronel entrou na Justiça para ficar em silêncio.
O discurso de Jair Bolsonaro ao votar pelo impeachment lhe rendeu um processo de cassação do mandato por quebra de decoro parlamentar, feito pelo Partido Verde (PV) que o acusou de apologia ao crime de tortura. Em novembro de 2016, o Conselho de Ética da Câmara arquivou o processo por 11 votos a 1.
O argumento vencedor foi o de que para o exercício pleno da função de deputado federal, os parlamentares são invioláveis civil e penalmente quanto às suas opiniões.
O deputado Capitão Augusto (PR-SP) acrescentou em seu voto no caso Bolsonaro que Ustra foi condenado a ser chamado de torturador apenas em primeira instância e que deveria se preservar a presunção da inocência até o trânsito em julgado.
Durante as sessões da Comissão de Ética, Jair Bolsonaro disse que Ustra era um herói brasileiro. Em entrevista no programa Roda Viva no dia 30 de julho, o deputado disse que seu livro de cabeceira é “A Verdade Sufocada”, versão do coronel Ustra sobre o regime militar do Brasil.
Na quarta (16), o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) extinguiu um processo contra o Coronel Brilhante Ustra pela morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino, que foi morto sob tortura no DOI-Codi em 1971. A família pedia indenização de R$ 100 mil, o TJ-SP condenou Ustra em 2012, entretanto, antes de esgotados os recursos, o mesmo tribunal considerou que o caso prescreveu. Com informações da Folhapress.

