
Geraldo Carneiro fala durante o Chá Acadêmico da ASL – Fotos: Marcos Vollkopf
O titular da cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras (ABL), Geraldo Carneiro, carioca nascido de ventre mineiro, na planície de seus 73 anos, presenteou Campo Grande na noite de quinta-feira, 25. Ele foi o convidado especial do Chá Acadêmico promovido pela Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL) e fez a palestra “Uma Vida Entre as Palavras”. Antes, fez questão de aplaudir a iniciativa dos acadêmicos locais e associá-la ao conteúdo de sua fala.
“Estabelecer diálogos nos mais diversos lugares e multiplicar os ambientes de manifestações culturais significam atender não somente uma aspiração, mas preencher também uma necessidade de singular valor humanista”, sublinhou. Ao confessar-se comovido com a oportunidade, revelou que no caminho para a ASL refletiu sobre a admirável dimensão do País: “É esta força que o Brasil profundo possui. Fiquei encantado por conhecer este pedaço que eu desconhecia”.
Para Carneiro, quanto mais se produz e se divulga cultura, mais se dialoga com uma nação tão cheia de diversidades e encantos. “Não sei se sou um pragmático da palavra. Sou um apaixonado pela palavra e adoro qualquer atividade em que a palavra seja chamada a intervir”, afirmou. A afirmação remete aos talentos de sua bagagem de conhecimentos: poeta, dramaturgo, letrista, libretista, roteirista, tradutor, professor e compositor, com incursões na literatura, teatro, cinema, TV e música e uma coleção de prêmios importantes.
Na ciranda de convivências afetivas e artístico-culturais, Geraldo Carneiro tem ilustrações humanas de elevadas grandezas, com amigos e parceiros de composição e interpretação como Egberto Gismonti, João Donato, Vinicius de Moraes, Francis Hime, Millôr Fernandes, Eduardo Souto Neto, Astor Piazzolla, João Ubaldo Ribeiro, Wagner Tiso, John Neschling, Bráulio Pedroso e Alcides Nogueira (com quem fez um remake de adaptação da novela “O Astro”, um grande sucesso de Janete Clair).
UNIVERSALISMO – Ele ressaltou que a melhor tradução a ser dada à importância das artes é a sua essência universalista, que reclama a democratização cada vez maior e mais ampla dos acessos e da apropriação coletiva da cultura. Um dos caminhos acessíveis é a música, sua primeira paixão. “É um fascínio desde a mais tenra infância. Meu desejo era ser músico, mas eu não tinha o talento que meus colegas e amigos músicos tinham. Então, eles foram me empurrando docemente para o reino das palavras”, conta.
No cinema, Carneiro escreveu com Márcia de Almeida o roteiro do filme “Eternamente Pagu”, dirigido pela atriz Norma Bengell, que também contracenou com Carla Camuratti, Antonio Fagundes e Otávio Augusto. E em 1995 ele e Millôr Fernandes roteirizaram “O Judeu”. A obra, dirigida por Jom Tob Azulay, conta a história de António José da Silva, um célebre autor teatral português do século XVIII, de origem judaica e cristão-nova, e a sua saga após ser julgado pelo Tribunal do Santo Ofício.
Ao citar Millôr Fernandes – que faleceu em março de 2012 -, Carneiro se deteve, emocionado: “Ele era um companheiro de trabalho maravilhoso. E a gente se divertia. Escrevemos um segundo roteiro que nem foi realizado, só pelo prazer de estarmos juntos escrevendo. Foi uma delícia. Ele era um propositor fértil, brilhante, um polemista muito feroz. “Mas, no convívio com os amigos, era de uma doçura…”
Se não prosperou uma ideia iniciada com Cacá Diegues, que não chegou a produzir seu roteiro, Carneiro teve as suas letras abraçadas por partituras de Eduardo Souto Neto, Egberto Gismonti, Astor Piazzolla, John Neschling, Francis Hime e Wagner Tiso, entre outros. Há canções emblemáticas. “Choro de Nada”, por exemplo, foi gravada por Vinicius de Moraes e Toquinho, em 1975, e por Tom Jobim e Miúcha, em 1978.
Além das traduções que fez, incluídos os sonetos e as peças de Shakespeare, adaptou obras literárias como “A Desinibida do Grajaú”, “Lúcia McCartney” e “O Compadre de Ogum”, escreveu as minisséries “Tudo em Cima” e “O Sorriso do Lagarto” (do romance homônimo de João Ubaldo Ribeiro). Em coautoria com Alcides Nogueira, adaptou uma nova versão da novela “O Astro”, de Janete Clair.
Tinha 22 anos em 1974, era um estudante de Letras na PUC-RJ, quando escreveu o primeiro livro, “Frenesi”, título que escolheu sob a inspiração de um filme homônimo de Alfred Hitchcock. Foram coautores na obra os poetas Cacaso, Francisco Alvim, João Carlos Pádua e Roberto Schwarz. Publicou mais de uma dezena de obras literárias, entre as quais “Piquenique em Xanadu”, Prêmio Lei Sarney de Melhor Livro de Poesia do Ano, em 1988.
O olhar aguçado do compositor-escritor é movido por impactos que misturam perplexidades, questionamentos, denúncias, esperanças e amor, porque ele cuida da vida fora dos limites da sua finitude, embora reconhecendo-a: “Quando me deparei com a morte, por exemplo, percebi que a morte era insemiotizável. Então, precisava de algo além da música para falar do espanto diante da vida, da alegria, do encantamento e da morte. Daí, a palavra passou a ser fundamental para que pudesse dialogar com esses mistérios inerentes à existência”.
OLHARES DA PALAVRA – Apresentado pelo acadêmico Rubenio Marcelo e escoltado pelo presidente da ASL, Henrique de Medeiros, Geraldo Carneiro alinhou sua abordagem nos horizontes de olhares pontuais e conjunturais da palavra. Compôs a sua dimensão universal no contexto da diversidade humana, revelando suas influências e a própria essência criativa, mas preocupando-se com as incontáveis fotografias que as almas, o instinto e a inteligência produzem ante as perguntas e respostas de cada um:
“A palavra também fica à mercê das circunstâncias, pois às vezes querem um poema e ele só vai ser compreendido daqui a 50 anos. Depois vai ser compreendido novamente. Existe uma inconstância. Uma arte que depende essencialmente do leitor. E o leitor não é responsável por uma única leitura. Como dizia o velho grego: a gente nunca atravessa duas vezes o mesmo rio. A cada vez o rio se transforma”, lembrando o filósofo Heráclito de Éfeso. “A literatura, a música, as artes dependem sempre do diálogo com o interlocutor, com o leitor, no caso das palavras. E isso é uma constante”.
O Projeto “ABL na SL: Palestras Imortais” é feito em parceria com a Secretaria Estadual de Turismo, Esporte e Cultura (Setesc) e Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS). Durante os Chás e as Rodas Acadêmicas a ASL tem projetos com Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e a Confraria SociArtista. Nesta oferta artístico-musical do Chá Acadêmico com a UFMS e a Confraria, apresentaram-se para o deleite do público o maestro e professor Marcelo Fernandes e as artistas plásticas Rebekah Vieira e Sônia Corrêa.

