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A perigosa relação entre incêndios, Covid-19 e outras doenças

por Redacao
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Estudo brasileiro publicado na Public Health mostra como incêndios no Pantanal aumentaram internações por COVID-19 durante a pandemia – Foto: Divulgação

Um estudo brasileiro publicado esse mês na conceituada revista internacional Public Health investigou os efeitos da fumaça de incêndios florestais na saúde da população. Os resultados evidenciaram a relação direta dos incêndios de 2020 no Pantanal com o aumento das internações por COVID-19 na região durante a pandemia do coronavírus.

Em 2020, o Brasil enfrentava dois desafios simultâneos de saúde pública: incêndios florestais catastróficos e o aumento da mortalidade devido à pandemia do coronavírus (COVID-19). A fumaça desses incêndios contribui para gerar uma gama de poluentes atmosféricos, alguns deles conhecidos como material particulado fino, ou PM2,5, partículas de poeira muito finas suspensas no ar que têm cerca de 2,5 mícrons de diâmetro, ou 0,0025 milímetros.

Isso significa que são menores do que a areia da praia (que tem cerca de 90 mícrons), do que um fio de cabelo (com 50-70 mícrons) e ainda menores que o pólen das flores ou o mofo (menos de 10 mícrons), como mostra a imagem. A inalação dessas partículas, visíveis apenas com microscópio, representa riscos significativos para a saúde. Elas penetram profundamente nos pulmões, causando irritação dos olhos, garganta e sistema respiratório.

 

 

Durante a pandemia, a exposição a uma elevada quantidade desses poluentes gerados pela maior série de incêndios na região do Pantanal brasileiro aumentou a gravidade das hospitalizações e a mortalidade associados à COVID-19. O estudo foi conduzido por seis universidades, Instituto Chico Mendes e o Programa de Pesquisa de Longa Duração (PELD) do Pantanal, que integram a Rede Pantanal de Pesquisa/MCTI.

Idosos e mais pobres são os mais atingidos

Utilizando dados extraídos de imagens de satélite, os cientistas mensuraram o material particulado, a chuva, a temperatura, os focos de incêndio e a área queimada em 17 municípios do Pantanal em 2020. Eles também levantaram o número de hospitalizações por COVID-19 no mesmo período, a partir da plataforma OpenDataSUS, do Ministério da Saúde.

Os resultados mostraram um aumento de 23% nas internações por COVID-19 em idosos durante os meses com maior concentração de material particulado. Nas regiões pantaneiras mais pobres (segundo o índice Gini, que mede a desigualdade de renda), o aumento foi de 18% nas internações.

A influência da condição socioeconômica destaca a desigualdade no acesso aos cuidados de saúde na região. Estima-se que mais de 15.000 pessoas vivam em áreas rurais do Pantanal, algumas isoladas nas várzeas ou fazendas, distantes de hospitais ou unidades de saúde, com pouco ou nenhum acesso à água tratada e saneamento. Nesta parcela, estão as comunidades indígenas, cujo os casos de COVID-19 foram 136% mais numerosos e a taxa de mortalidade foi 110% superior à população em geral.

É urgente definir políticas públicas para eventos extremos

interação entre fatores ambientais, socioeconômicos e de saúde mostrou a necessidade de integrar políticas públicas no combate aos eventos extremos e seus efeitos. Grandes incêndios, longos períodos de seca e calor extremo tendem a ser ainda mais frequentes com as mudanças climáticas e, por isso, criar e implementar estratégias de mitigação e adaptação é urgente e fundamental.

Camila Lorenz, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, é membro da Rede Pantanal de Pesquisa e uma das autoras do estudo. Ela explica que a preparação para a época de incêndios florestais precisa envolver as equipes de saúde e começar com muita antecedência, mesmo na ausência da COVID-19:

“Vimos que a fumaça proveniente dos incêndios está muito relacionada às internações, principalmente em populações mais vulneráveis como os idosos. É preciso antever os eventos de fogo em todos os setores e serviços públicos, para preparar adequadamente as ações e proteger as comunidades envolvidas. Além disso, se considerarmos que a fumaça pode viajar vários quilômetros e atingir outras localidades, é fundamental adequar uma estratégia articulada em nível nacional.” Fonte: Rede Pantanal de Pesquisa

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