Chapada do Apodi. Divisa entre Ceará e Rio Grande do Norte. Uma terra antes ocupada pela agricultura familiar, mas que na década de 1990, com a instalação de um perímetro irrigado, começou a receber multinacionais produtoras de frutas. É, também, uma região conhecida nacionalmente pelo uso intenso de agrotóxicos. E foi lá que o professor de Medicina da Universidade Federal do Ceará, Ronald Pinheiro, fez descobertas sobre mudanças genéticas sofridas por trabalhadores rurais que lidam diretamente com os produtos.

O Ministério da Saúde respondeu que trabalha na elaboração de diretrizes para diagnóstico e tratamento de pessoas intoxicadas – Foto: Divulgação
Ele encontrou deficiências nos genes que reparam o DNA. Esse quadro, segundo o professor, indica maior probabilidade de um futuro com câncer. “O processo de desenvolvimento de um câncer dura anos a décadas. O que a gente tá mostrando que essas alterações geram o que a gente chama do conceito de instabilidade genômica, ou seja, o genoma da pessoa está com funcionamento anormal. Essas mesmas alterações que a gente encontrou na medula deles são alterações encontradas em pacientes com câncer”.
O professor explica que os testes foram realizados em trabalhadores do agronegócio, da agricultura familiar, e mais um grupo menor da agroecologia. “80% com exposição aos agrotóxicos e cerca de 15 a 20% são indivíduos que trabalham na agricultura que não tem contato com agrotóxico. Quando a gente compara o exposto e não exposto, os resultados são realmente bem impressionantes. A aplicação do agrotóxico em si parece ser um fator determinante”.
Essa é a mais recente pesquisa realizada na Chapada do Apodi, mas não a única. A região já é conhecida por outros estudos que relacionaram a exposição intensa ao agrotóxico a problemas graves de saúde.
Virou tema de documentários e lá um caso chamou a atenção do país: a morte em 2008 de Vanderlei Matos da Silva por insuficiência dos rins. Ele trabalhou na multinacional Fresh Del Monte por cerca de 3 anos, na armazenagem e mistura dos produtos que eram pulverizados nas plantações. A viúva, Maria Gerlene dos Santos, lembra como foi a evolução da doença. “veio ficar os olhos amarelados, as pontas dos dedos rachadas. Aí foi fazer uma consulta em Fortaleza, o médico resolveu deixar ele internado lá. Mas foi bem rápido. Quando a gente soube da doença dele até quando ele faleceu foi mais ou menos um mês”
Gerlene entrou na Justiça do Trabalho em 2009, buscando a reparação. O caso foi até a última instância, e no ano passado ela saiu vitoriosa. “Quando ele estava vivo ele dizia para mim que se ele escapasse dessa ia colocar a empresa na Justiça. Foi por isso que me deu forças para eu colocar. Ainda mais porque como ele não está mais o direito vai ficar para o meu filho e o filho dele. Porque o que a gente pensa de bom é o futuro do filho da gente”
Em setembro de 2017 o pagamento foi autorizado, mas até hoje, 10 anos depois da morte, ela não recebeu a indenização, que ultrapassa os R$ 500 mil. Segundo o advogado Cláudio Silva, ocorreu um problema no depósito judicial. “A gente percebe uma protelação da empresa. Foi um detalhe técnico, jurídico, mas o fato é que a empresa deveria pagar e não pagou ainda. Apesar dessas questões é uma vitória extraordinária. Nos parece que é o primeiro caso no Brasil onde há uma condenação em razão da exposição continuada de um trabalhador ao agrotóxico”
De acordo com a Justiça do Trabalho no Ceará, a Vara de Limoeiro do Norte determinou que os bancos prestem esclarecimentos sobre o problema. Já o setor jurídico da Fresh Del Monte disse que a empresa não comenta casos judiciais.
Em nota, o Ministério da Saúde respondeu que trabalha na elaboração de diretrizes para diagnóstico e tratamento de pessoas intoxicadas por agrotóxico. A pasta diz ainda que existe um setor específico para acompanhar populações expostas à substância, com o objetivo de reduzir riscos à saúde.

