Em viagem oficial a Nova York para vender uma agenda positiva, assim como fez a presidente Dilma Rousseff no fim de junho, o vice-presidente Michel Temer disse nesta terça-feira que o PMDB pode deixar o governo e lançar candidato próprio à presidência em 2018. O assunto foi levantado pelo próprio peemedebista durante uma palestra para advogados americanos, pela manhã. À tarde, em rápida entrevista à imprensa depois de participar de um almoço com investidores, Temer voltou ao tema.
Perguntaram se o PMDB teria candidato (em 2018), eu disse que sim – afirmou, evitando comentar se ele seria o postulante do partido. — Faltam no mínimo três anos…
Mais cedo, o vice-presidente havia citado em seu discurso na NYC Bar Association, uma espécie de OAB local, o pleito do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, para que o partido acompanhasse a sua decisão de partir para a oposição.
Ainda na conversa com jornalistas, Temer atribuiu a “uma inferência da Polícia Federal” a citação das iniciais MT, que constariam de anotações no celular do empreiteiro Marcelo Odebrecht, como sendo suas. Ele frisou que “dezenas de iniciais” foram listadas na análise de dados armazenados no iPhone apreendido na casa do executivo, e garantiu não ter “nenhuma relação com fatos delitosos”:
Foram dezenas de iniciais. Eu não tenho a menor ideia. Eu nem sei se a Odebrecht colaborou com o partido, com o PMDB. Várias empresas colaboraram, eu até mandei verificar se colaborou. Mas não tenho a menor ideia. É uma inferência da Polícia Federal, não sei se legítima ou ilegítima. Eu conheço o Marcelo Odebrech. Não sei por que está lá. Esse MT pode ser tanta coisa, é uma sigla de muitos nomes e de muitas instituições, quem sabe. É preciso perguntar a eles, assim como atribuíram a outros tantos que eu não quero mencionar aqui. Mas eu não consigo entender e não tenho nenhuma relação com fatos delitosos.
Questionado sobre a defesa das chamadas pedaladas fiscais que o governo entrega nesta quarta-feira ao Tribunal de Contas da União (TCU), o vice-presidente foi breve:
Conheço juridicamente, acho que está muito bem montado. Agora, o que o Tribunal vai decidir cabe ao Tribunal, né?
Isso e cíclico, né, de vez em quando há essas avaliações, isso aconteceu em muitos governos e a avaliação depois melhora. Vamos aguardar o futuro.
EUNÍCIO ADMITE SAÍDA EM 2017
O PMDB, segundo líderes do partido, vai garantir a governabilidade até o fim, mas, em algum momento de 2017, é consenso de que deve-se romper a aliança para preparar a candidatura à Presidência da República em 2018. A data, diz o líder do PMDB no Senado, Eunício de Oliveira (CE), vai depender do que for estabelecido na reforma política. Não está descartada a candidatura do próprio Temer. Neste caso, pelas regras atuais, ele teria que renunciar seis meses antes da eleição.
Mas o rompimento da aliança com o PT teria que se dar antes, para que o PMDB possa preparar sua candidatura à sucessão da presidente Dilma Rousseff.
Em algum momento de 2017, o ano pré-eleitoral, quando as instâncias partidárias decidirem pela candidatura própria, esse rompimento da aliança tem de acontecer. Isso é natural e não é novidade para ninguém. O que Michel falou hoje todos nós sabemos. Não há impedimento legal para que Michel seja o nosso candidato, desde que ele não assuma seis meses antes. Ou então ele renuncia. Depende de como virá a reforma política — explicou Eunício de Oliveira.
O que o PMDB não fará agora, explicou, é romper num momento de baixa do governo. Segundo Eunício, o partido não vai agir de forma oportunista nem apostar no quanto pior melhor. O líder garante que o PMDB não tem DNA golpista nem oportunista e vai garantir a governabilidade até o final.
Agora, que ninguém tenha dúvida que o PMDB vai se preparar para ter um candidato em 2018. Esse é o sentimento de todos nós. É natural que haja antes essa desincompatibilização do governo para preparar nossa candidatura — completou Eunício.
MOREIRA FRANCO: DECISÃO SERÁ TOMADA EM CONGRESSO DA SIGLA
O presidente da Fundação Ulysses Guimarães e ex-ministro da Aviação Civil, Moreira Franco, também explica que essa decisão se dará no Congresso Nacional do partido, como sempre acontece. O congresso está marcado para outubro próximo. Ele nega que a fala de Temer, nesta terça-feira, tenha sido uma admissão no sentido de que o PMDB pode romper a qualquer momento a aliança com o PT.
Mas quando isso acontecer e o partido lançar sua candidatura, querem o apoio dos atuais aliados.
Não. O nosso compromisso sempre foi com o Brasil: democracia, equilíbrio fiscal, inflação controlada e justiça social. Segurança econômica e jurídica. Vamos aprovar o que falta do ajuste e continuar defendendo o nosso programa e a nossa candidatura em 18. E queremos apoio — diz Moreira Franca.
Na Oposição, as declarações de Temer não deixam dúvidas de que ele admite a saída do governo para pavimentar seu caminho para 2018.
O deputado petista Devanir Ribeiro (PT-SP) diz não acreditar que o PMDB antecipe o desembarque do governo, nesse momento de dificuldade, de olho em 2018.
É o calor do momento. O partido não se manifestou como partido em relação a romper ou não, como Eduardo Cunha. 2018 é outro departamento. Um dia qualquer pode ser hoje ou 2018 — acredita Devanir.

