Transgênicos para acabar com o desmatamento na Amazônia. Esta é a alternativa proposta por um cientista brasileiro para melhorar a produtividade agrícola na Região Norte e diminuir o impacto ambiental da devastação florestal em busca de solo para lavouras ou pastos, segundo o biólogo Marcos Buckeridge, professor livre-docente da USP e um dos autores do próximo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).
Opinião:
Transgênicos: em direção a um debate puramente científico
Caso se confirmem as previsões dos impactos das mudanças climáticas, como ressecamento de algumas regiões e alagamento de outras, além do aumento de gás carbônico atmosférico e de temperatura, a agricultura sofrerá quedas na produtividade, o que implica problemas sociais e econômicos. “Transgênicos podem ser a chave para uma ação rápida, mas há igualmente problemas políticos”, afirma Buckeridge, sobre a alta burocracia para aprovação de transgênicos. “Aí só nos sobrará substituir variedades, o que é mais lento ainda ou então importar alimentos – mas de onde? a que preço?”, completa o biólogo.
Avanço ao norte
O avanço da fronteira agrícola em direção à Amazônia já tem sido constatado há algum tempo, seja para a produção de alimentos, seja para o cultivo da cana de açúcar para a produção de etanol ou de soja. De acordo com Buckeridge, “esse é um ponto polêmico, mas o uso de geneticamente modificados na região agrícola do Brasil beneficia a Amazônia, por não exercer tanto impacto”.
“As tecnologias que nós desenvolvemos, como as plantas geneticamente modificadas, vão ter que ser usadas. Nessa condição, para suprir alimentos, têm que ser usadas e vão ter que ser usadas no Brasil”, realça Buckeridge. Além de controlarem as pragas de insetos, as culturas geneticamente modificadas podem ainda ter seu desempenho melhorado em situações de seca e a biomassa de cada planta aumentada, maximizando a produtividade e reduzindo os desmatamentos.
Modelos alternativos
Já o geneticista Paulo Yoshio Kageyama, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), da USP de Pirassununga, e ex-consultor do Ministério do Meio Ambiente (MMA), é contrário ao uso de transgênicos na agricultura.
O pesquisador acredita, inclusive, ser “um absurdo abrir uma área que tem 150 espécies diferentes e plantar um único genótipo, a soja”, por exemplo, sobre desmatamentos que acontecem na Amazônia Legal para o cultivo do grão, destinado em sua maioria para exportação. “Quanto maior biodiversidade, maior poder de se resistir, sobreviver”, justifica.
Kageyama desenvolve projetos-piloto em assentamentos agrários, que envolvem modelos sustentáveis de agricultura, como sistemas agroflorestais, que consistem na imitação da floresta em miniatura, só que com plantas “úteis”; e as ilhas de alta produtividade ou o cultivo de alta diversidade de espécies, técnicas que protegem as plantas contra pragas por um mecanismo de proteção natural.
Censo
No último ano, a produção agropecuária brasileira superou todas as metas e registrou os melhores resultados obtidos até então, segundo dados do Ministério da Agricultura. A safra nacional chegou à produção recorde de 166,2 milhões de toneladas, registrando valor bruto de R$241,8 bilhões.
Apesar disso, o Brasil utilizou, de acordo com o último censo mundial de agricultura, realizado em 2010 pela Organização de Alimento e Agricultura das Nações Unidas (FAO, na sigla em inglês), 275 mil hectares com agricultura, o que corresponde a mais de um quarto do território nacional.

