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Cruzeiro pela Terra do Fogo mistura luxo, história e aventuras geladas

por Redacao
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O Glaciar Piloto: “É como descobrir algo selvagem”, diz Carlos Fernandes

Na primeira manhã a bordo do M/N Mare Australis, os 74 passageiros do cruzeiro expedicionário acordaram, olharam pela janela das cabines e viram que tinham dado sorte. O Cabo Horn, extremo sul do continente americano, conhecido por suas tempestades fortíssimas que causaram mais de 500 naufrágios, naquele dia – 30 de setembro – estava calmo. Quase não ventava e o sol queria sair. Nessas condições, todos poderiam desembarcar naquele que não é o cenário mais bonito da rota pela Terra do Fogo, mas é o mais temido e cobiçado pelos navegantes

Em média, três em cada dez tentativas de descer na Isla de Hornos (como é chamada pelos chilenos) são frustradas pelos ventos e correntes. Mas o clima ajudou a primeira expedição da temporada – que vai de setembro a abril – e pontualmente às 7hs os turistas começaram a subir nos botes de borracha. Em alguns minutos, os primeiros aportavam numa baía pedregosa, de onde se sobe uma escadaria até uma planície de vegetação baixa e amarelada. Ali, fica um monumento metálico – um enorme losango com a forma de um albatroz recortada – e, desse ponto, tem-se a visão do rochedo mais austral da América e do planeta.

Contemplar o “fim do mundo” (onde as coordenadas marcam 55° 59? 00? S, 67° 16? 00?) é uma experiência inesquecível. Logo vêm à cabeça nomes que ali fizeram história – Francis Drake, Charles Darwin, Jacob le Maire. A importância geográfica daquele ponto – onde Pacífico e Atlântico se encontram, onde a Antártida está a apenas 650 km – também dá solenidade à visita. E, mais que tudo, é um ótimo lugar para refletir e colocar em perspectiva algumas coisas “do mundo” lá atrás. “É emocionante, porque sabemos a importância que teve, para a humanidade, cruzar o Cabo Horn”, diz o turista mexicano Ramón Galarza, 63 anos.

O passeio pela ilhota se completa com a visita à casa da família Ubal, escolhida pela Armada Chilena para “tomar conta”, por um ano, desse lugar estratégico. Únicos moradores da ilha, mãe, pai e um casal de filhos (Thomas, 3, e Gênesis, 10) levam ali uma vida nada usual. Estavam há seis meses sem receber visita alguma. “Ter a chance de estar sempre junto da família é impagável”, diz Ângela Vera, enquanto a pequena Gênesis brinca com uma calculadora. “Eu estudo pela internet”, conta a garota, que às vezes sente falta de poder comprar um sorvete.

Na baía do massacre
O navio, que tem capacidade para 175 passageiros, mede 71,8 por 13,4 metros e atende pelo sinal de chamada CB MU, tinha partido na noite anterior de Ushuaia, cidade argentina que ostenta a condição de mais austral do mundo (na verdade, o município chileno de Porto Williams, na margem oposta do Canal de Beagle, está alguns metros mais ao sul). Com aproximadamente 100 mil habitantes, ela fica espremida entre o Canal e os últimos picos e cristas dos Andes. Se você ficar por ali um ou dois dias, esperando para embarcar, há algumas opções de turismo.

A mais divertida é Cerro Castor, única estação de esqui da Terra do Fogo e também (como quase tudo ali) a mais ao sul do mundo. Tão ao sul que suas primeiras pistas nevadas começam a apenas 189 metros de altitude. Localizada a meia hora de Ushuaia, sua temporada termina em 12 de outubro, ou seja, coincide durante poucas semanas com a temporada de cruzeiros (o passe diário custa, em média, R$ 70). A dica de passeio cultural é o antigo presídio da cidade, hoje transformado em museu – onde foi construído também o museu náutico.

Após o embarque no Mare Australis, em Ushuaia, a primeira parada é o Cabo Horn. Depois, no mesmo dia, o turista conhece a linda Baia Wulaia, na Ilha Navarino, outro lugar onde aconteceram momentos importantes da história. Lá, quatro nativos da etnia Yámana foram sequestrados por Fitz Roy, capitão da nau Beagle, que três anos depois devolveria os indígenas (um havia morrido) no mesmo local, durante a expedição que levava a bordo o naturalista Charles Darwin. Também houve ali um expressivo massacre de missionários europeus.

Aqui, vale um parêntesis para falar dos Yámanas. Em seus relatos sobre a Terra do Fogo, Darwin faz muitas referências aos nativos da região. Segundo ele, eram um povo atrasado e sub-humano, nômade e agressivo – e mesmo canibal. Mas o naturalista, que tinha 22 anos naquela viagem, podia tê-los visto também como exemplo máximo da adaptabilidade da raça humana. Por 12 mil anos, os Yámanas (que não eram canibais) viveram na hostil Terra do Fogo sem usar roupas. Desenvolveram uma visão muitíssimo apurada e um dialeto com 44 mil termos. E, depois de 50 anos de contato com os europeus, sumiram do mapa, vítimas das amenidades do homem branco: obrigados a se vestir, tiveram problemas de pele; incentivados a comer carne de caça, adoeceram; ensinados a andar eretos, passaram a sofrer dores na coluna. No mais, tabaco, álcool e doenças europeias liquidaram os Yámanas.

A geleira azul
No dia seguinte, os passageiros puderam se espantar com a beleza das geleiras Piloto e Nena. Após navegar num trecho do Canal de Beagle ladeado por picos de mais de 2 mil metros, cujos penhascos mergulham diretamente no mar, como se a cordilheira estivesse afogada até a metade, o cruzeiro para à beira de um estreito fiorde. Dali segue-se em botes de borracha por um braço de canal de águas semi-congeladas, que termina numa baía fechada. Em frente fica a geleira Nena, que retrocedeu, mas pode ser vista morro acima. E, logo à esquerda, nesse mesmo ponto sem saída em que o canal se transformou, vê-se o incrível Glaciar Piloto.

Pense num imenso bloco de gelo azulado, que se ergue quase 250 metros para fora do mar, incrustado numa colina. Ao longo de suas paredes, enormes lascas se projetam para fora e formam grutas azuis. Às vezes, pedaços se soltam e caem, por isso não é permitido chegar muito perto. Mas o bote consegue ficar a cerca de 20 metros do Piloto, proporcionando uma experiência inesquecível ao visitante. “É como descobrir algo selvagem, algo novo e inexplorado”, resume o turista espanhol Carlos Fernandes, 37 anos.

No fim, pinguins
O cruzeiro de exploração é um conceito que mistura conforto e culinária de primeira com passeios que começam às 7 da manhã e levam por trilhas geladas. É bem diferente de um cruzeiro comum. Tem menos gente – e não tem piscinas, cassinos e crianças correndo. Também não tem TV, nem internet. A comida é excelente: pratos locais a base de cordeiro, truta e caranguejo, acompanhados por ótimos vinhos chilenos. As sobremesas incluem sorvetes artesanais (feitos no navio) de frutas típicas como o calafate e a lúcuma. “A maior dificuldade de meu trabalho é não comer muitos doces”, brinca o capitão Oscar Sheward.

Não fosse bom o vinho, aliás, muita gente teria se recusado a se levantar quando soou a chamada no alto-falante, em espanhol e inglês, na última manhã da viagem: “Com sua atenção, por favor. São seis horas e trinta minutos. Lá fora, a temperatura é de três graus Celsius, venta e chove. Estamos na Ilha Magdalena, situada em meio ao Estreito de Magalhães, e todos estão convidados ao desembarque para conhecer os pinguins que vivem nela”.

Mas a disposição de quem topa a aventura é recompensada pela graça e beleza dos mais de 70 mil casais de pinguins-de-magalhães que moram naquele grande rochedo, onde a única construção humana é um farol e a casa abaixo dele. Acostumados às visitas, os animais cruzam o caminho bem próximos aos turistas. Andam com aquela pose engraçada – como alguém que caminha na ponta dos pés, no chão frio do banheiro – e emitem um som alto, parecido com o de uma vuvuzela.

Após o passeio, o navio segue para a bonita cidade chilena de Punta Arenas, à beira do Estreito de Magalhães, onde a aventura pela Terra do Fogo termina. Já as recordações daqueles dias no mar, permanecem por muito tempo junto dos viajantes. “É tudo estupendo. Você se sente com uma sorte enorme, por poder ver coisas que poucas pessoas viram”, resume Ramón Galarza. “A paisagem emociona o tempo todo”, completa a arquiteta brasileira Lídia Senatore.

Informações úteis
A viagem que contamos aqui dura três noites e vai de Ushuaia a Punta Arenas, mas é possível fazer o trajeto oposto, de Punta Arenas para Ushuaia, que dura quatro noites. Ou a viagem completa de ida e volta, que dura sete noites e pode partir das duas cidades. Para chegar a Ushuaia, é preciso ir até para Buenos Aires e dali tomar um voo de quatro horas. Para ir a Punta Arenas, viaje até Santiago e tome um voo de quatro horas e meia.

IG Turismo

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