O valor do jornalismo e da transparência

É missão de todo jornalista auxiliar o público a ver e compreender o que se passa. Faz parte dessa profissão ajudar as pessoas a separar as opiniões – irracionais, governadas pelo ódio – dos fatos jornalisticamente apurados. De fornecer informações seguras para a tomada de decisões acertadas e conscientes. Em meio à pandemia do novo coronavírus, a informação de qualidade ganha o mesmo grau de importância que o trabalho de médicos e cientistas. Um novo estudo ou a cura de uma doença não chega antes no grupo de WhatsApp da família, ele deverá ser divulgado e discutido à exaustão por especialistas e terá a divulgação assegurada pelos veículos de comunicação por intermédio dos jornalistas.

Em pronunciamento na terça-feira, 24 de março, Bolsonaro deixou a nação perplexa durante cinco minutos ao minimizar os efeitos do novo coronavírus, contrariando as recomendações dos médicos, do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS) para conter a disseminação da pandemia que afeta mais de meio milhão de pessoas no mundo. Já no início, o presidente voltou a reclamar da mídia, acusando a cobertura de alarmista e de espalhar o pavor.

Para ele, a “maldita imprensa” o persegue sem trégua. Sim, presidente! Somos profissionais, vigilantes, sempre em busca de tudo aquilo que é contrário aos interesses da coletividade, exercemos uma função social imprescindível cuja finalidade é o bem público, conectar as pessoas para a tomada de decisões amparadas em informação de qualidade, fornecidas por jornalistas, de forma segura, responsável e transparente.

Observatório da Ética Jornalística: Não venceremos a pandemia sem transparência – Foto: Ilustração

Como diria Hannah Arendt, a política é uma esfera em luta permanente com a verdade. A transparência é um problema para os políticos e uma de suas principais inimigas. Faz parte do jogo político ocultar. Ao contrário, no jornalismo, a transparência é aliada e exerce uma função social importante para garantir a liberdade de expressão e o acesso à informação em democracias abertas. Em suma: transparência e jornalismo tornam-se uma ameaça potencial ao Estado e aos que estão no poder.

No jornalismo, a transparência basicamente se apresenta de quatro maneiras: na divulgação de informação (atual); com precisão (informação verdadeira, correta); clareza (informação dada de maneira compreensível); e participação (interação do público). Ou seja, qualquer pessoa pode ouvir/ver/ler e assimilar o que está sendo noticiado e questionar. E mais, a transparência de jornalistas é uma demonstração de honestidade, senso de justiça, ética e responsabilidade com o público.

A cobertura jornalística (de alguns veículos) em meio à pandemia do novo coronavírus tem sido irretocável. Organizações de notícias não estão apenas relatando os eventos, mas se fazem compreensíveis, divulgam fontes, explicam, se esforçam para trazer clareza e precisão, cumprindo funções jornalísticas essenciais para a sociedade: informar com qualidade, mostrar a verdade dos fatos com transparência, responsabilidade e interesse público. A transparência na divulgação dos fatos pode salvar vidas. Seu oposto, a opacidade, o ocultamento, o sigilo, impede o conhecimento, leva à desinformação, colocando a população em riscos graves. Ao contrário do que afirma o presidente do Brasil, não se trata de “histeria” ou de espalhar o “pavor social”, mas de resistir ao colapso e ao ataque à razão, às mentiras, de garantir informação essencial, a distinção entre fato e ficção e expandir a colaboração nesse momento de insegurança e medo.

O jornalismo brasileiro tem sido responsável, corajoso e inteligente na cobertura do novo coronavírus. Na grande imprensa, a Rede Globo está cumprindo um importante papel, atualizando as notícias sobre o vírus, orientando a população e repreendendo as medidas adotadas e as declarações equivocadas das autoridades e do presidente Bolsonaro, que governa pelo ódio. A emissora fez alterações na grade para privilegiar a programação jornalística e a prestação de serviço.

Jornais unificaram suas capas (pela primeira vez) para reforçar a importância da informação segura em meio à pandemia. A ação partiu de uma campanha liderada pela Associação Nacional de Jornais. Um estudo especial divulgado pela agência global de comunicação Edelman diz que, em meio à pandemia do coronavírus, as fontes mais confiáveis de informação são os veículos da grande imprensa. Outra pesquisa, realizada pelo Datafolha, registrou um aumento na procura por programas jornalísticos, na TV, no rádio e em sites noticiosos. As notícias voltam a crescer em confiança e credibilidade na vida das pessoas (todos estes dados foram levantados no mês de março).

Rogério Christofoletti enfatiza que, “assim como grandes meios de comunicação alteraram suas grades, derrubaram paywalls, os veículos independentes se superam na cobertura” porque são limitados, com pouca receita e equipes reduzidas, mas nem por isso deixam de cobrir a pandemia com “rigor e seriedade”. Destacamos alguns: Lagom Data monitora os casos da doença com atualização diária; a newsletter Brasil Real Oficial vasculha o Diário Oficial da União, as medidas do governo federal, e traduz de forma clara para o público. Inclusive as análises pagas estão abertas para não-assinantes: as ações do Nexo diante da pandemia do novo coronavírus e da Agência Pública, que produz reportagens especiais sobre os impactos econômicos e políticos da covid-19 no Brasil e libera o material para republicação.

Para os brasileiros, neste momento, é importante reconhecer e apoiar o jornalismo, comprando o jornal na banca, pagando uma assinatura digital, financiando uma reportagem, valorizando o trabalho e o esforço dos repórteres que estão na frente de trabalho e expostos à doença.

Há um movimento em alguns governos pelo mundo para barrar os jornalistas e ocultar informações da população. Na Venezuela, Darvinson Rojas foi detido pelas forças especiais após cobertura do coronavírus. Também o Egito e a África do Sul. No Irã, os jornalistas são autorizados a divulgar apenas os números oficiais de mortes fornecidos pelo Ministério da Saúde e a China tenta reformular a narrativa do coronavírus. Aqui no Brasil, a divulgação de informações sobre a pandemia já provocou reações hostis do governo. Em uma de suas tentativas de ocultar informações, Bolsonaro queria tornar regra o sigilo e impedir a publicidade e a transparência das informações alterando a Lei de Acesso à Informação.

Um conjunto de organizações e entidades se manifestou em nota de repúdio à Medida Provisória nº 928. Do Observatório da Ética Jornalística, veio a mensagem: Não venceremos a pandemia sem transparência. O diretor geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, tem sido incansável em alertar para a importância dos jornalistas na divulgação de informações precisas e que também são essenciais no combate à pandemia da covid-19. Logo, o Supremo Tribunal Federal travou e derrubou a MP.

Se não estivéssemos vigilantes, talvez a situação fosse bem pior e, nesse momento de crise, informação confiável e transparente é uma emergência. O jornalismo sério está enraizado na confiança e transparência, capacidade de colaboração, qualidade técnica e responsabilidade.

Vivemos numa época de guerra de narrativas e polarização e estamos atravessando um dos momentos mais sombrios da história nacional. A pandemia de coronavírus mostrou o valor do jornalismo, da unidade, colaboração e transparência. Ensina os brasileiros que jornalistas não trabalham segundo os interesses de uns e outros no poder. Somos comprometidos em “conectar fontes e públicos, fatos e pessoas”. O vírus fez lembrar de algo que parecia esquecido em meio a essa calamidade, além de lavar bem as mãos: o jornalismo está entre as poucas luzes que restam acesas e, como cidadãos e cidadãs, nos dá uma nova oportunidade para reavaliar onde estivemos nos informando até agora.

Denise Becker é mestranda em Jornalismo no PPGJOR e pesquisadora do objETHOS.

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