“É uma questão de vida ou morte”: o coronavírus ameaça povos indígenas em todo o mundo

A proteção de terras indígenas em todo o mundo é fundamental para impedir que milhares de indígenas morram por causa do coronavírus, afirmou hoje a Survival International.

Embora agora o mundo inteiro entenda que novas doenças são extremamente perigosas, o Presidente Bolsonaro está ativamente incentivando missionários fundamentalistas a fazer contato com povos indígenas isolados, que não têm resistência para doenças de fora.

Ele nomeou um missionário evangélico para comandar a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da FUNAI. E a Missão Novas Tribos, uma das maiores organizações missionárias fundamentalistas do mundo, lançou um plano para contatar indígenas isolados no Vale do Javari, lar de mais povos indígenas isolados do que qualquer outro lugar no planeta. A Missão Novas Tribos é agora chamada de Ethnos360 nos EUA.

Além disso, muitos povos indígenas no Brasil, como os Yanomami, os Kawahiva, os Uru Eu Wau Wau, os Munduruku e os Awá, estão vendo seus territórios sendo invadidos por garimpeiros, fazendeiros e madeireiros. Todos abrigam indígenas isolados, os povos mais vulneráveis do planeta, que são extremamente suscetíveis a doenças de fora.

Indígenas isolados, vistos do ar durante uma expedição da FUNAI em 2010 –  © G.Miranda/FUNAI/Survival

A líder indígena, Célia Xakriabá disse: “Temos preocupação redobrada com os povos isolados, porque pode significar o extermínio mesmo dessa população. Nós percebemos que a pandemia é uma crise para a humanidade, mas sabemos que o Brasil não vai ser exterminado na sua totalidade. Já para nós, povos indígenas, representa uma ameaça real de extermínio.”

A pesquisadora e ativista da Survival, Sarah Shenker, afirmou hoje: “Se suas terras estiverem definitivamente livres de invasores, os povos indígenas isolados ficarão relativamente protegidos da pandemia do coronavírus. Mas muitos de seus territórios estão sendo roubados e invadidos para a extração ilegal de madeira, de minérios e para o agronegócio. Esses invasores se sentem encorajados pelo incentivo do presidente Bolsonaro, que “declarou guerra” aos povos indígenas do Brasil. Nos territórios que têm invasores, o coronavírus pode acabar com povos inteiros. É uma questão de vida e morte.”

“Além do perigo para os povos indígenas isolados, a pandemia é também preocupante para muitos outros povos indígenas pois seu modo de vida comunitário pode facilitar a disseminação. Outro agravante é a distância geográfica dos hospitais dos quais eles dependem para tratar as doenças trazidas por não-indígenas.”

“A decisão do presidente Bolsonaro de encerrar o acordo com Cuba, que fornecia médicos ao Brasil através do programa de cooperação Mais Médicos, causou uma enorme diminuição na assistência à saúde dos povos indígenas. Essa situação deve ser solucionada com urgência, e um serviço de saúde eficaz e atuante deve ser disponibilizado aos povos indígenas imediatamente.”

Muitas comunidades indígenas em todo o mundo estão se colocando em quarentena em suas florestas, como o povo Orang Rimba da Indonésia e povos Adivasi na Índia. Algumas delas estão fechando seus territórios para não-indígenas durante a pandemia, pois os governos se mostraram incapazes ou pouco dispostos a proteger os territórios de invasões.

Líderes Tupinambá da Bahia relataram que políticos locais enviaram policiais para romper as barreiras colocadas pelos indígenas para fechar a entrada de suas aldeias e assim os proteger do coronavírus. Os policiais dispararam para tentar intimida-los. Os indígenas temem que mais violência pode ocorrer na região. Cacique Babau Tupinambá afirmou: “Estamos apenas cumprindo o protocolo da OMS mas parece que eles [políticos e policiais locais] querem deixar todo mundo entrar na aldeia e trazer o coronavírus para dentro do povo. Deram um bocado de tiros. Atiraram para cima, atiraram por lado”.

Atualmente, existem dois casos de indígenas com coronavírus confirmados no país. Um desses casos é de uma senhora Borari de 87 anos que faleceu em Santarém, Pará.

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