Metalurgia e línguas são temas de pesquisas do IFMS em Corumbá

Quem visita a cidade sul-mato-grossense de Corumbá tem a oportunidade de conhecer, ao mesmo tempo, as belezas do Pantanal, a região de fronteira com a Bolívia e o Maciço do Urucum, uma das maiores reservas de minérios do país. É nesse contexto que o Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS) estimula os estudantes a fazer pesquisa, por isso muitos projetos têm como temáticas a exploração do minério de ferro e questões linguísticas relacionadas ao país vizinho.

Uma das propostas do projeto de pesquisa “Avaliação da incorporação da cinza da Terminália Catappa e resíduos da barragem de minério de ferro na confecção de blocos intertravados” – desenvolvido no ciclo 2018-2019 da iniciação científica – é utilizar o rejeito do minério de ferro para substituir a argila na produção de tijolos solo cimento, também conhecido como tijolos ecológicos.

“Para produzir esse tijolo é necessário ter argila, cimento e água. A questão é que, em Corumbá, a argila não pode ser retirada dos leitos dos rios porque esses locais são preservados. Buscamos como alternativa, então, utilizar o rejeito do minério de ferro para substituir a argila. Com a substituição de 30%, todas as normas regulamentadoras foram atingidas, ou seja, o tijolo ficou dentro dos parâmetros exigidos”, explica a orientadora da pesquisa, Samara Valcacer.

Estudantes apresentam pesquisa que utiliza rejeito de minério de ferro para produção de tijolo ecológico – Foto: Divulgação

O mesmo projeto de pesquisa propõe a utilização do fruto da Terminalia Catappa, árvore conhecida como sete copas e muito comum em Corumbá, para a produção do piso intertravado, tipo de pavimento formado por blocos de concreto. A orientadora, Claudia Alves, explica que a proposta é substituir o cimento por um pó (cinza) produzido a partir da queima da castanha.

“Ao observarmos uma grande quantidade dos frutos nas ruas da cidade decidimos analisar a castanha e descobrimos que ela tem um alto teor de silício, também presente no cimento. Estamos buscando a melhor temperatura para a queima do fruto e, posteriormente, faremos ensaios mecânicos e de resistência para avaliar a aplicabilidade do material desenvolvido na produção do piso intertravado”, detalha Claudia.

Dayhana Pereira, 31, aluna do curso superior de tecnologia em Processos Metalúrgicos, foi bolsista da pesquisa. Mais do que promover o conhecimento, a iniciação científica provocou uma transformação interna.

“Venci limitações e o preconceito de ser uma mulher manuseando um britador. Tinha muito medo de usar esse equipamento e hoje o utilizo com muita facilidade e perfeição, graças à iniciação científica. Foi uma das maiores experiência da minha vida”, ressalta Dayhana.

Ensino de espanhol – O fato de estar situada na fronteira com a Bolívia faz de Corumbá uma cidade onde os moradores têm contato frequente com a língua espanhola. Essa proximidade entre as duas línguas é tema do projeto “Os Cognatos/ falsos amigos ou Heterossemânticos e suas interferências linguísticas no ensino da Língua Espanhola no IFMS/Corumbá”.

A pesquisa busca analisar até que ponto os heterossemânticos ou “falsos amigos” – palavras iguais em ambas línguas, porém com significados totalmente diferentes – interferem no ensino da língua espanhola a falantes da língua portuguesa. A orientadora, Jeannette Pereyra, explica que o aprendiz de uma língua estrangeira apoia-se na língua materna e que há cerca de 40% de similaridade entre o português e o espanhol.

“O estudo foi feito com todas as turmas de alunos de língua espanhola do IFMS em Corumbá. Concluiu-se que os falsos amigos são uma ótima ferramenta de ensino-aprendizagem e devem ser utilizados, porém é importante que os professores abordem o tema hoterossemânticos de forma ampla e cuidadosa. É preciso tomar cuidado para não causar uma confusão linguística grave, principalmente de interpretação”, destaca.

A orientadora relata que a inclusão dos “falsos amigos” nas aulas de espanhol é motivo de muitas risadas entre os estudantes e, é nesse clima de descontração, que se busca fixar o conteúdo. Entre os exemplos estão as palavras rato, que em espanhol significa momento, e pelado, que para os falantes da língua espanhola tem o significado de careca.

Radija Silva, 17, estudante do curso técnico em Metalurgia e voluntária no projeto de pesquisa ao lado do colega Hebert Lopes, ressalta a importância do estudo na região de fronteira.

“Os alunos vivem ao lado da Bolívia, vários bolivianos inclusive moram, trabalham e estudam em Corumbá. A falta de conhecimento sobre as variações semânticas de certas palavras ou até mesmo a ideia de que é “a mesma coisa” são muito comuns. Queremos mostrar que ambas as línguas possuem suas singularidades e importâncias”, pontua Radija.

Conforto térmico – Uma característica bastante marcante da cidade de Corumbá – as altas temperaturas – também virou objeto de pesquisa no IFMS. Com o projeto “Estudo da eficiência de um tijolo solo-cimento com adição de material polimérico para proporcionar conforto térmico”, estudantes do curso técnico em Metalurgia desenvolveram um tijolo capaz de gerar conforto térmico e melhorar as condições de vida da população.

“O que fizemos foi adicionar MMF, materiais capazes de absorver e liberar calor de forma mas inteligente, aos tijolos ecológicos já existentes. Nos testes iniciais observamos uma diminuição de até dois graus na temperatura interna do ambiente, sem alterar a resistência mecânica do tijolo. Acreditamos que com adequações conseguiremos alcançar melhor eficiência”, explica Samara, que também orienta esse projeto.

Um dos estudantes envolvidos com a pesquisa é Guilherme Barbosa, 17, que concluiu o curso no primeiro semestre deste ano e, agora, só aguarda a formatura para ter o diploma de técnico em Metalurgia nas mãos. O jovem que pretende fazer faculdade de Engenharia de Minas só vê benefícios em fazer iniciação científica.

“Como estudante, contribui para uma formação mais sólida e incentiva na busca por conhecimento. Como pessoa, nos faz compreender o quão importante é fazer ciência. Começamos a olhar a pesquisa com outros olhos”, pontua Guilherme.

Iniciação Científica – No ciclo 2018-2019 da iniciação científica, estudantes e professores do Campus Corumbá desenvolveram 15 projetos de pesquisa nas mais diversas áreas. O montante investido para o custeio dos trabalhos e o pagamento de bolsas aos estudantes foi de R$ 54.570,00.

Na série histórica compreendida entre 2014 e 2019, 152 estudantes estiveram envolvidos com iniciação científica no Campus Corumbá, dos quais 101 receberam bolsas do próprio IFMS ou do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e 20 receberam prêmios em eventos científicos estaduais e nacionais.

A fim de popularizar a ciência e a tecnologia, o IFMS promove feiras científicas anuais nos dez campi. A Feira de Ciência e Tecnologia do Pantanal em Corumbá (Fecipan) reúne trabalhos de estudantes do ensino fundamental, médio e técnico integrado do município e da cidade vizinha, Ladário. Nos últimos cinco anos, 459 projetos foram apresentados na feira.

A edição 2019 da Fecipan será realizada entre os dias 3 e 5 de outubro, durante a Semana de Ciência e Tecnologia do IFMS. Mais informações sobre as feiras científicas do IFMS estão disponíveis na página do evento.

 

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