ARTIGO: Artigo questiona métodos de trabalhos sobre riscos dos OGM’s

Artigo questiona métodos de trabalhos sobre riscos dos OGM’s

Existem muitos questionamentos sobre os OGM’s e seus possíveis impactos na saúde dos seres humanos. Por vezes, a resposta obtida é a de que os OGM’s aumentaram a utilização de agrotóxicos nas lavouras e, com isso, o risco de contaminação das pessoas. Este cenário torna esta tecnologia de difícil aceitação, pois obviamente ninguém quer ser contaminado e ter sua saúde em risco.

O trabalho científico “Toxicidade crônica do herbicida glifosato e do milho geneticamente modificado tolerante ao glifosato” (Long term toxicity of a Roundup herbicide and a Roundup-tolerant genetically modified maize), dos autores Séralini e colaboradores (disponível em http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0278691512005637), aponta para problemas gerados pelos OGM’s e pelo glifosato. Mas, como todos devemos fazer com tudo que lemos, vamos fazer uma análise fria sobre o trabalho.

Os autores utilizam fotos muito boas e impactantes sobre os ratos utilizados no experimento, evidenciando os tumores causados pela alimentação com OGM’s. Entretanto, os ratos utilizados no experimento apresentam NATURALMENTE anomalias, ou seja, é uma espécie cujos indivíduos naturalmente apresentam tumores quando mais velhos. O próprio trabalho apresenta este fato em seus resultados. Então, por que não foram colocadas fotos dos ratos do tratamento controle, sem a alimentação com OGM’s? Porque ESTAVAM com tumores também. Este questionamento foi duramente exposto por diversos pesquisadores de todo o mundo, pois esta decisão completamente enviesada dos autores pode levar leitores menos atentos a uma impressão equivocada dos resultados.

Mas as falhas deste trabalho não pararam por aí. Há erros estatísticos gravíssimos, e que não nos permitem uma conclusão. Primeiro, o número de ratos utilizados no experimento é considerado extremamente baixo – apenas 20 ratos por tratamento (10 machos e 10 fêmeas), o que dificulta as comparações, ainda mais se considerarmos o potencial do organismo naturalmente desenvolver anomalias. As análises estatísticas são complexas e de grande dificuldade de entendimento, mesmo por experts em estatística, e não indicam a significância da diferença e não expõem quais as diferenças significativas observadas.

Os padrões apresentados pelos autores no trabalho citado acima apresentam outro erro gravíssimo: Como associar as quantidades ingeridas pelos ratos com as quantidades ingeridas pelos seres humanos? Os ratos foram alimentados regularmente com uma dieta concentrada e sem a opção de escolha por outro alimento. Além disso, os tumores nos ratos utilizados aumentam se forem submetidos a recursos alimentares ilimitados, como foi feito no trabalho. Não podemos nos esquecer da famosa frase dita por Paracelso (médico e físico do século XVI): “Todas as substâncias são venenosas, não existe nada que não seja veneno. Somente a dose correta diferencia o veneno do remédio”. Assim, a falta de comparações entre as quantidades ingeridas pelos ratos e a potencial quantidade de OGM’s que teríamos que ingerir para a dose se equiparar dificulta interpretar os resultados. Similarmente podemos dizer que o consumo diário de uma taça de vinho é extremamente benéfico para o coração, mas o consumo de uma garrafa de vinho por dia pode culminar em uma cirrose hepática e eventual morte do organismo.

A ideia de que os OGM’s causam mal à saúde não foi comprovada cientificamente até o presente momento. Isso se ressalta pelo trabalho “Uma década de pesquisas com OGM’s” (A Decade of EU-funded GMO research), financiado pela União Europeia e publicado por órgãos oficiais, entre FAO, Comissão Europeia e Setor de Pesquisas Europeias. Este relatório traça um panorama sobre 10 anos de pesquisas com OGM’s na Europa (10 anos!!!). A principal conclusão do trabalho é de que com 10 anos de pesquisas não há nenhuma evidência científica associando os OGM’s a maiores riscos para o meio ambiente ou para a alimentação se comparados aos apresentados por plantas convencionais.

Senhores, a ideia é trazer o debate sobre os OGM’s à tona, despido de qualquerPRECONCEITO. Nós, técnicos e estudiosos, devemos nos interar de forma correta dos assuntos, sem ser a favor ou contra a tecnologia, mas primando sempre por usá-la de forma correta. Devemos nos esforçar em ser contra ou a favor a uma tecnologia ou em utilizá-la de forma adequada? Decifra-me ou te devoro…

José Fernando Jurca Grigolli é engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV, 2009), mestre em agronomia – produção vegetal – pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP, 2012) e doutor em andamento em agronomia (entomologia agrícola) também pela UNESP. Na Fundação MS, ocupa o cargo de pesquisador de fitossanidade.

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